Porque se o José Wilker pode, eu também posso.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Oscar 2017

Mais um ano que passa, mais um Oscar que chega, mais uma vez ninguém se importa. Nada como o niilismo da existência diária revertido em meu post anual no blog.

OK, Oscar 2017. Basicamente:
Sabe aquela sua tia que faz um café super fraco, e com muito açúcar, mas que toda vez que você vai na casa dela você toma então se acostumou mesmo e nem repara mais? Sou eu, com o Oscar. Tá uma merda, como foi ano passado e como foi antes disso. De uma lista de nove, você não consegue três que são realmente exemplos máximo da arte do cinema americano. Mas ainda me dou ao trabalho de baixar e assistir todos na lista. Por quê? Ninguém sabe.

Esse ano, temos apenas nove indicações, já que a Pixar não fez a parte dela de lançar um filme incrível pra esse período. A Academia pode indicar dez filmes, e juro por Deus que toda vez me lembro daquela cena clássica de Jurassic Park: só porque você pode, não quer dizer que deve. Puta que me pariu, sei que é possível indicar dez filmes e que colocar “Indicado a Melhor Filme” na capa do DVD ajuda a vender, mas por favor. É super possível fazer um TBT e indicar cinco apenas. Ou seis. Não precisa só porque pode. O melhor que tenho a dizer sobre esses filmes é que quase todo têm ou menos de 2h ou só um pouquinho a mais, então se decidir assistir... não vai perder tanto tempo da sua vida assim?




A chegada

(Arrival. Denia Villeneuve, 2016)

            Antes de ver esse filme, tudo o que sabia sobre ele era que existiam aliens e uma linguista estava tentando traduzir o que os aliens falavam. Em nenhum momento imaginei que se tratava de um filme “sério” – vamos combinar que se você coloca a Megan Fox de óculos (pra mostrar como ela é esperta!) e várias explosões, isso bem que podia ser a premissa básica de um filme do Michael Bay. Mas não, é um filme dramático com aliens. Alguma parte do meu subconsciente que um dia viu Marte Ataca!  é incapaz de aceitar esse tipo de combinação e o estranhamento nunca mais foi embora.
            Tenho vários problemas com esse filme: o pacing é muito devagar (35 minutos pra eu ver a porra do alien que sei que existe porque aparece no trailer e é premissa básica da narrativa, pelo amor); ele se leva a sério demais, o que me deu um destoante absurdo porque são aliens que parecem as Ultrabeasts do último jogo de Pokémon; a teoria linguística que precisa ser aceita para que o “plot twist” faça sentido é ridícula pra mim; é impossível não pensar em “Interestelar com linguística” no final.
            Mas gosto de várias outras coisas: Amy Adams é uma ótima atriz; o processo de comunicação/tradução com os aliens é interessante para mim, como linguista que sou; a edição (de imagem e de som) está incrível.
            Agora, o que esse filme está fazendo aqui, numa lista de indicados ao Oscar pra Melhor Filme? Não faço a menor ideia, imagino que alguém é muito bom de cama e esteve muito ocupado fazendo lobby individual. Todos os prêmios técnicos são válidos, mas... sério. Aliens. Sou incapaz.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som; Melhor Cinematografia; Melhor Edição; Melhor Direção de Arte.
Deve levar: Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som são possibilidades, mas LA La Land está aí para acabar com essa alegria. Melhor Edição é discutível, mas se levasse não ficaria chocada. Mas, novamente, La La Land.



Um Limite Entre Nós

(Fences. Denzel Washington, 2016)
           
            O filme começa com o Denzel Washington, senhor da porra toda, fazendo praticamente um monólogo de 15 minutos. Foi nessa hora que pausei minha reprodução patrocinada pelo PirateBay e fui confirmar o que já suspeitava: é baseado em uma peça de teatro.
            Filmes baseados em peças de teatro são, em geral, uma coisa a parte. Pesados em diálogo, leves em tudo o mais. Esse filme não é uma exceção: é uma excelente peça filmada, mas não é um filme. A adaptação é quase inexistente, o que leva a um produto engessado, que não aproveita as várias possibilidades que o cinema permite explorar, inexistentes no palco de um teatro.
            Isso quer dizer que é ruim? Não quando o diálogo é incrível e você tem Denzel Washington (que deveria sim levar melhor ator, que se foda o irmão do Ben Affleck) e a Viola Davis diva suprema (que vai levar melhor atriz coadjuvante) mandando na tela. Mas, de um ponto de vista cinematográfico, é altamente pobre: não espere edições inteligentes, e ângulos de câmeras significativos ou paralelos visuais. É uma peça de teatro com trilha sonora. O que é muito bom e talz se você quer ver uma peça de teatro com trilha sonora, mas quando estou falando da linguagem do cinema, quero bem mais que isso. E o fato de este filme estar indicado pra Melhor Roteiro Adaptado é uma piada absurda. 

Indicações: Melhor Film; Melhor Ator Principal (Denzel Washington); Melhor Atriz Coadjuvante (Viola Davis); Melhor Roteiro Adaptado
Deve levar: Melhor Atriz Coadjuvante. Esse é o ano da Viola e ninguém pega esse prêmio das mãos dela. Denzel é a minha escolha pessoal pra Melhor Ator, mas ele sofre do mesmo mal que o Leonardo diCaprio e o Tom Hanks: eles são normalmente muito bons e as pessoas preferem premiar alguém que “surpreendeu” com o talento do que alguém que “está sempre bom porque é foda”.



Até o Último Homem

(Hacksaw Ridge. Mel Gibson, 2016)

            Todo Oscar tem um desses. Um desses filmes americanos da porra que sou obrigada a assistir porque está nessa lista, mas que nunca em um milhão de anos me daria ao trabalho. Esse ano, a honra vai pra um filme dirigido pelo Mel Gibson, também conhecido como o Babaca Antissemita e Racista Que Foi Famoso Um Dia.
            Esse filme foi um exercício pra minha paciência. E só não foi pior porque realmente gosto do Andy Garfield (indicado a Melhor Ator Principal, que não vai levar), mas mesmo assim. O filme começa com uma cena de guerra em câmera lenta com narração em voice-over e pula pra um flashback no qual o pai violento quebra a mão e sangra em cima de um túmulo (sutileza! simbolismo!)... e é tão clichê e tão descarado e tão desnecessário e tão forçado que nem sei o que dizer.
            O filme conta a história de um médico americano que se recusava a pegar em armas por motivos religiosos, e que salvou uma galera na Segunda Guerra. A história em si não é o problema, o problema é o sr. Mel Gibson, que no passado conquistou fama por fazer um filme de torture porn com Jesus Cristo e continua tentando muito chocar a audiência com explosões e sangues, como se isso fosse possível depois que milhões de Jogos Mortais. A terceira parte do filme envolve tranquilamente 15 minutos de pura violência e gritos e olhos explodindo e cérebro voando e ai meu Deus como a guerra é violenta, não é mesmo? Não recomendo, não vale a pena, o Mel Gibson ainda é um babaca, foram 2 horas da minha vida que nunca mais voltarão.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Ator (Andrew Garfield); Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som
Deve levar: Se há um Deus misericordioso, nada. Porque se essa merda de filme levar Melhor Direção, desisto da vida.


A Qualquer Custo

(Hell and High Water. David Mackenzie, 2016)

            Todo Oscar também tem um desses também – aquele filme do qual você nunca ouviu falar. Aquele que provavelmente seria o favorito do Zé Wilker por ser o mais hipster da lista. A honra de ocupar o posto de Indicação Hipster Que Ninguém Lembrará Ano Que Vem vai para A Qualquer Custo, a história de dois irmãos que começam a roubar bancos e do policial que cuida do caso (e está prestes a se aposentar, olha só!)
            A melhor coisa dessa filme é sua trilha sonora, ótima seleção musical, Tarantino se orgulharia. A segunda melhor coisa é que só tem 1h40min. Não tenho uma terceira coisa pra elogiar. Não é um filme ruim, em sim, é só um filme incrivelmente esquecível. Ele é tão bege que a Meg Ryan está julgando.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (Jeff Bridges); Melhor Roteiro Original; Melhor Edição
Deve levar: O Jeff Bridges ganhar é possível, e não seria um absurdo nem nada. Melhor Roteiro Original deve ficar com La La Land mesmo.
           

Estrelas Além do Tempo

(Hidden Figures. Theodore Melfi, 2016)

           Estrelas Além do Tempo é um filme que resume um dos meus maiores problemas com a indústria no momento: filmes construídos para momentos e não para coesão e história. Sabe quando está assistindo filme, e existe uma cena/fala que você pensa na hora “nossa, certeza que isso está no trailer”? Exatamente.
O filme é uma série de cenas que você pode adicionar um “uhhhhu snap” no fundo, interligada de forma a criar um filme, mas falta alguma coisa pra que a história flua de um modo orgânico. Narrando uma versão incrivelmente romantizada da história real de três mulheres negras que conquistaram seu espaço no mundo da NASA, esse é um filme entretente com um ótimo elenco, mas que é basicamente uma versão ligue-os-pontos de todos os filmes inspiradores de história real que você já viu na vida.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
Deve levar: Um grande sorriso e uma camiseta “Fui No Oscar e Lembrei de Você”




La La Land: Cantando Estações


(La La Land. Damien Chazelle, 2016)
           
            Estava exausta desse filme antes mesmo de ver o trailer. Aí vi o trailer e minha exaustão só subiu. Curto a Emma Stone, não tenho nada contra o Ryan Gosling e amo musicais, então você imaginaria que ia curtir esse filme, certo? Errado. Por alguns motivos: não aguento mais casal hétero e cis se apaixonando; não aguento mais filme romântico em que conflito ocorre por falta de comunicação (conversem com seus namorados, amiguinhos, dica); não aguento mais ver a mesma história. Sei muito bem que o ponto de La La Land é capitalizar na nostalgia, mas, olha em volta. Não precisa ficar nostálgico, a gente está engolindo essa mesma história faz anos, a única diferença é que a galera manda whats pro crush e não carta pra futura esposa.
            Agora, eu seria capaz de perdoar muita coisa, mas muita coisa, mas não capaz de perdoar um simples fato: você fez um musical com atores que não sabem cantar. Ponto final, fim de conversa, valeu a participação, boa sorte na vida. Ninguém canta nada. Como é possível que o mundo caiu de pau em cima do Russell Crowe por Le Miserable e não vi ninguém falando nada da Emma Stone?? Me senti pessoalmente atacada pela incapacidade vocal demonstrada no dueto dos dois. E, sem brincadeira, esse filme não tem nada a ganhar por ser um musical: as músicas são monótonas, cantadas por quem não sabe cantar e servem apenas pra me tirar do filme e me fazer pensar “caralho, ninguém nem fez aula de canto?” Ele seria tão melhor se fosse apenas um filme com bastante música instrumental, sabe.
            E sei que reclamei por dois parágrafos, mas na verdade não odiei La La Land. O terço final do filme (quando eles param de tentar forçar o canto, olha só) é realmente bom, a edição desse filme é incrível, a visão e o design necessário para criar esse universo é louvável. Mas  a hype toda desse filme não é merecida, ele é entretente e bonitinho, acabou. Galera do elenco que não para de falar que o filme foi um “risco” precisa procurar a palavra no dicionário – que não tem um filme mais calcado no “seguro” com um toque gourmet de musical do que esse.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Ator Principal (Ryan Gosling); Melhor Atriz Principal (Emma Stone); Melhor Roteiro Original; Melhor Trilha Sonora; Melhor Canção; Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som; Melhor Direção de Arte; Melhor Cinematografia; Melhor Figurino; Melhor Edição.
Deve levar: Possivelmente, todos ou uma boa parte dos técnicos, com destaque especial para Edição de Som, Mixagem de Som e Direção de Arte. Esse é um dos cotados para ganhar Melhor Filme e juro por tudo o que é mais sagrado que não existe UM universo em que La La Land é um filme melhor do que Moonlight. Claramente Oscar nunca foi um poço de coerência, então veremos o nível da putaria. Emma Stone é forte candidata também, e esse seria um prêmio merecido caso realmente acontecesse.
           


Lion: Uma Jornada para Casa

(Lion. Garth Davis, 2016)

            Esse foi o filme que me fez parar, respirar fundo e pensar “ok, agora sim Oscar”. Estou apaixonada por ele de todas as formas que você consegue pensar: atuação, edição, fotografia, trilha sonora, roteiro... ele é incrível, muito incrível... e não vai levar absolutamente nada nesse Oscar (yay!).
            Lion conta a história de um garotinho indiano que se perde da família e é adotado por uma família australiana. Ele trata temas complexos e duros sem usar narração voice-over em nenhum momento, confiando que você é capaz de entender o que está acontecendo pela belíssima composição de imagens e som. Se tem um filme dessa lista que recomendo de verdade que você assista, esse filme é Lion. Ele acerta em todos os quesitos de um jeito raramente encontrado, é um exemplo do que a arte visual do cinema pode fazer e de como é possível construir uma narrativa não somente baseada em diálogo e narração. Lindo e emocionante. Só assiste, vale a pena.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (Dev Patel); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Trilha Sonora; Melhor Cinematografia
Deve levar: Nada, senta e chora o absurdo.
Merecia levar: Melhor Ator Coadjuvante – Dev Patel, além de gato, tem uma plasticidade emocional incrível. Melhor Roteiro Adaptado deve ir pra Moonlight (justo, inclusive), mas sou muito mais Lion para Cinematografia do que La La Land, que deve levar.


Manchester À Beira-Mar

(Manchester by The Sea. Kenneth Lonergan, 2016)

            Sofrência: o filme. Manchester À Beira-Mar conta a história de um homem que perde o irmão e precisa voltar pra sua cidade natal pra cuidar do sobrinho e enfrentar seu passado, dan dan dan! O filme conta com a realmente brilhante atuação do Casey Affleck (irmão do Ben, que já estava pronta para odiar por princípio genético) e da Michelle Williams, que em 4 segundos vem e mostra como ela realmente é boa nesse negócio de atuação, bem como apresenta uma história interessante, desenvolvida com extremo cuidado.
            Não sei muito o que dizer sobre esse filme, na verdade. Ele é um drama pesado com boa atuação e um ótimo final. Ele não chega nem perto de ser o melhor da lista, mas não é o pior também. Duvido que cause muita hype ou que seja lembrado em dois anos. Ele existe. E é válido, mas não é chamativo o suficiente para chamar muita atenção.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Ator (Casey Affleck); Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges); Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Williams); Melhor Roteiro Original
Deve levar: Melhor Ator. Olha, queria muito que fosse o Denzel Washington. Mas deve ser do baby Affleck e vai ser uma escolha justíssima. Em qualquer outro ano, Michelle Williams teria chance real de levar, mas com a Viola Davis arrasando como está? Improvável.



Moonlight: Sob a Luz do Luar

(Moonlight.Barry Jenkins, 2016)
           
            Conversando com um amigo, comentei que só faltava Moonlight na minha lista de filmes de Oscar pra ver, e disse que estava preocupada com a possibilidade de ser muito pesado, já que sabia genericamene do que o filme se tratava (identidade negra, homossexualidade, uso de drogas e relacionamento interpessoal) e que estava com preguiça antes mesmo de começar.
            Adoro estar errada nessas coisas.
            Moonlight é um filme extremamente delicado, composto com maestria e adaptado pro cinema com precisão cirúrgica disfarçada de arte (olha só Um Limite Entre Nós, como é possível adaptar do teatro sem parecer que estamos numa peça, dica) com atuações incríveis e uma das melhores edições dessa lista. Sem a menor brincadeira, Moonlight é o claro vencedor de Melhor Filme desse ano – sim, pessoalmente gostei mais de Lion, mas admito que o melhor filme, cinematograficamente falando, é 100% Moonlight e será praticamente impossível não criar um discurso de racismo na Academia caso La La Land ganhe o prêmio máximo. Pense em Formation da Beyoncé perdendo pra Hello da Adele e vai entender o que estou falando.
            Lindo filme, ótimo filme, que o mundo me dê mais Moonlights e menos La La Lands em 2017.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Ator Coadjuvante (Mahersahala Ali); Melhor Atriz Coadjuvante (Naomie Harries); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Trilha Sonora; Melhor Cinematografia; Melhor Edição
Deve levar: Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado. Embora coloque minha mão no fogo somente pelo último.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Oscar 2016

E mais um ano chega, mais um horário de verão termina, e mais um Oscar é transmitido com tradução simultânea na TNT. Cada vez mais, o Oscar tá ali porque acontece todo ano e ninguém liga muito – é tipo aquele caminho que você faz quando dirige da casa pro trabalho. Liga o piloto automático e só vai. É tipo o “Altas Horas”, programa mais esquecível do mundo que ainda existe na programação da TV. É tipo aquele doce de gelatina que sua tia faz e ninguém gosta muito mas ainda assim tem em todo churrasco de domingo, e como está em cima da mesa mesmo você acaba comendo.

A única diferença deste Oscar para o dos últimos anos foi apenas uma: todos os filmes foram super fáceis de achar no PirateBay. O que já faz dele um Oscar melhor do que o de 2013, por exemplo. 

Sem mais delongas, os indicados a Melhor Filme deste ano na ordem que aparecem no site oficial:

A Grande Aposta

(The Big Short. Adam McKay, 2015)

Aí me chamaram pra ver esse filme no cinema. Sobre o que é, quis saber. “Sobre a quebra do sistema de hipotecas americano”.
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Sem surpresas que não estava exatamente querendo assistir, né?
A Grande Aposta foi uma grata surpresa não só por (a) não ser a coisa mais chata do mundo (é bem entretente, na verdade) e (b) ser capaz de explicar economia ao menos superficialmente para que eu acompanhasse a narrativa, mas por (c) usar o meio cinematográfico para contar uma história.
Isso é algo que vem me incomodando faz um tempo, e só me toquei o quanto no meio da minha maratona Oscar: cada vez menos filmes estão usando as possibilidades visuais e criativas do cinema pra contar uma história. Explico: um filme é um meio visual, diferente de um livro (ou um roteiro) que é um meio escrito. Sim, sei que isso é óbvio e até o Lula admite saber essa diferença, mas por conta disto, um filme deveria ser mais do que apenas um roteiro televisionado. Ele deveria aproveitar a composição de cena, a edição, a trilha sonora, a computação gráfica, o caralho a quatro disponível no meio tridimensional e enriquecer e alterar a maneira como a narrativa é passada.
A Grande Aposta usa e abusa do fato de ser um filme, introduzindo cenas e cortes e edições que um livro não seria capaz de fazer com a mesma eficácia. Isso está cada vez mais raro de tal forma, que seriamente gostaria que levasse o prêmio de melhor filme. No mais, é uma ótima escolha dessa lista e recomendo mesmo se você, como eu, nunca conseguiu entender economia.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Christian Bale), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição
Deve levar: Melhor Roteiro Adaptado, a não ser que perca para O quarto de Jack. Eu gostaria, de verdade, que levasse Melhor Filme, mas esse deve ser O Regresso mesmo. Melhor Edição deve ser dele tb.


Ponte dos Espiões 


(Bridge of Spies. Steven Spielberg, 2015)

                Esse é um filme do Spielberg. Com o Tom Hanks. Sobre um homem de princípios e a guerra fria.
                Podia parar a descrição por aqui, porque você já sabe o resto.
                Tom Hanks segura o filme sozinho só por ser Tom Hanks, interpretando um advogado que defende um espião russo acusado de traição em plena guerra fria nos EUA. O filme é baseado em fatos reais (que é outro problema que eu tenho com a ficção atual, mas posso reclamar disso outra hora) e é beeeem direção e roteiro “siga os pontos” – tudo como deve ser, sem nunca fugir do tradicional e honrando a moral e os bons costumes. É ruim? Não. É bom? Olha, não é ruim.
                Honestamente? Se alguém lembrar desse filme em 5 anos, vou ficar surpresa. Está indicado pra cumprir tabela, e vai ganhar nada além do direito de colocar “Indicado a Melhor Filme” no Oscar na capa do DVD.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coajuvante (Mark Rylance), Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Arte, Melhor Mixagem de Som
Deve levar: Minha aposta? Nada. Sempre existe a chance de Melhor Roteiro Original, mas prefiro ter fé na humanidade e apostar em Straight Outta Compton ou Divertida Mente.

Brooklyn



(Brooklyn. John Crowley, 2015)

                Também conhecido como Sofrência branca: o filme.
                Brooklyn é a história de uma imigrante irlandesa (Saoirse Ronan) que muda pros EUA pra ter uma vida melhor. E é isso. Juro. É isso. O filme se resume em uma frase. E tem mais de duas horas. Sabe o que eu podia ter feito nessas duas horas?? Podia ter reassistido 4 episódios de Parks & Rec. Você me deve 4 episódios, filme.
                Ouvi pessoas amando esse filme. Ouvi pessoas dizendo que a XXX vai levar o Oscar de melhor atriz. E para essas pessoas eu pergunto: quem machucou vocês? Porque considerar as desventuras da Moça Branca (que nem existem, porque ela sai da Irlanda com lugar pra morar e trabalho e acha um macho logo em seguida, então, oi?) enquanto nada acontece na vida normal dela como qualquer coisa além de perda de tempo e energia vai além da minha capacidade de compreensão.
                E não tenho nada contra a Ronan. Acho inclusive que ela fez um trabalho decente considerando a personagem sem personalidade (sei que ela é irlandesa, e que é tímida e... e... e...). Mas o problema dela é a falta de carisma. Como já disse (e repito todos os anos), talento e carismas não necessariamente vão juntos, e você segurar um filme que é basicamente você não é pra qualquer um. Matt Damon consegue em Perdido em Marte. Tom Hanks consegue em Jogo de espiões. James Franco não conseguiu em 127 horas e Saoirse Ronan definitivamente não consegue em Brooklyn.
                E, finalmente, só tenho a dizer que um filme que termina com freeze frame em 2016 não merece o ar que respira.
Indicações: Melhor Filme, Melhotr Atriz Principal (Saoirse Ronan), Melhor Roteiro Adaptado
Deve levar: existe uma chance real de levar Melhor Atriz Principal, mas minha torcida vai pra Brie Larson até o fim (ou pra Cate Diva Blanchett em Carol, que não vi, não particularmente pretendo ver, mas meu amor pela Cate é assim, incondicional).
Merecia levar: um tapa na cara pra ver se encontra Jesus
               

Mad Max: Estrada da Fúria

(Mad Max: Fury Road. George Miller, 2015)

                Quando vi a lista de indicações, dois filmes me surpreenderam. Mad Max foi um deles. A Academia indicar para o prêmio máximo um filme de ação futurista com quase nenhum diálogo e perseguição a cada quatro trocas de cenas? Pouca importa se o filme é válido ou não, só a indicação já abre precendente para um futuro menos esnobe (esperamos).
                Especialmente curto que Mad Max foi indicado e oscar baits óbvios ficaram de fora dessa lista (olhando pra você, Garota dinamarquesa).
                Sobre o filme: gostei. Bem mais do que esperava. O primeiro Mad Max é um dos filmes mais chatos que já vi, em que nada acontece por mais de uma hora (sei porque apostei com o meu irmão quando alguma coisa ia finalmente acontecer no filme. Meu palpite foi 1h15min e eu ganhei) então estava meio cética em relação a este. Mas de similar os dois têm apenas o nome e a ambientação.
                Muito bem editado e atuado (Tom Hardy é meu pastor e nada me faltará), Mad Max é um filme que consegue criar um ambiente novo e surreal que é mostrado pelo visual e por detalhes, e não por diálogos e exposição. É um filme-filme e não um filme-livro. E tem todo o meu amor e respeito por isso.
                Claro que não vai ganhar Melhor Filme. Ninguém realmente sonha. Mas sua indicação é um ótimo sinal pro futuro, deve ganhar vários (se não todos) prêmios técnicos e tomara que a inevitável continuação seja tão boa quanto. E tenha o Tom Hardy. Amén.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Cinematografia, Melhor Edição, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem, Melhor Efeito Visual, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som
Deve levar: todos os prêmios técnicos do universo. Pense Senhor dos Aneis no passado.


Perdido em Marte


(The Martian. Ridley Scott, 2015)

                Esse foi a minha segunda surpresa. Porque Perdido em Marte é uma comédia, e comédia não são indicadas a não ser que sejam dirigidas pelo Woody Allen. Ridley Scott é um diretor reconhecido, claro, mas ainda assim: comédia. Comédia com ficção científica e um certo drama no espaço, mas não deixa de ser um filme com mais humor do que drama.
                De qualquer forma, é outro bom sinal, assim como Mad Max, para a possibilidade de um futuro com filmes diferentes indicados, e não apenas mais do mesmo dramalhão com filtro azul de duas horas com um protagonista sofrendo.
                Matt Damon está indicado como melhor ator (o que muito me surpreende quando XXX de O quarto de Jack não foi, mas beleza) e ele faz, como normalmente, um ótimo trabalho. O filme é basicamente ele sendo maravilhoso em Marte e é isso. É entretente, é divertido, ótimos efeitos, não posso opinar sobre a ciência da coisa como sei nada sobre o espaço, mas ouvi falar que estava ok.
                Embora tenha gostado, ainda assim tive dois grandes problemas com esse filme: 1) som. Galera, sei que Inception foi um puta filme, ainda amo mais do que muita gente na minha vida, mas precisa colocar aquele “PAM” de música de suspense a cada 5 segundos em uma cena? Certas influências devem morrer, porque isso é irritante pra caramba; 2) o filme chama de Perdido em Marte, vi no trailer que ele está perdido em Marte criando plantas, todos sabe que o filme tem mais de duas horas então é claro que ele não vai morrer nos primeiros 15minutos. Filmes podiam parar de tentar criar tensões óbvias e só seguir com a vida – pula pra próxima cena que ninguém vai morrer, caralho.
                Fora isso, bom filme. Não deve levar nada, claro, exceto talvez algum prêmio técnico. Mas válido. Pessoalmente, acho que Divertida Mente deveria ter sido indicado a Melhor Filme mais do que esse, mas o que um bom lobby e o nome do diretor não faz, não é mesmo?
Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Principal (Matt Damon), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Efeito Visual, Melhor Direção de Arte, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som
Deve levar: Sempre existe a chance de algum técnico (sou bem ruim em adivinhar técnicos, sempre fui), mas ainda acho que Mad Max tem mais chance nessa parte.

O Regresso

(The Revenant. Alejando Iñárritu, 2015)

                Unpopular opinion time: Leonardo diCaprio não merece o Oscar que vai ganhar por esse filme.
                Ele merece um Oscar? Sem a menor dúvida. Jamais me conformarei que não ganhou um por Revolutionary Road (e nem indicação, pq a Academia decidiu que indicar por Diamente de Sangue era melhor? Babacas). Ele é um ótimo ator injustiçado a um ponto que virou piada? Claramente. Essa é a melhor atuação do ano e portando merecia ser premiada? Não. Desculpa, mas não.
                Tudo o que o diCaprio faz nesse filme é grunhir e não morrer. Quero nem saber o desconforto que o ator sofreu, ou que ele dormiu numa carcaça de animal e pegou pneumonia e quase morreu. Isso pouco importa (é tipo quando você assiste, sei lá, The Voice e a pessoa fica “ai, mas eu larguei tudo para estar aqui, emprego/família/escola, só tenho essa chance!” – ninguém mandou, se não cantar bem vai ficar sem emprego/família/escola pra largar de ser besta). O que importa, por exemplo, é que Tom Hardy está melhor do que diCaprio nesse filme (o fato de que ele vai perder o Oscar pro Rocky me machuca profundamente pq Tom Hardy é vida) e ninguém nem fala dele pq o momentum Oscar é todo diCaprio. Ele vai ganhar, claramente, e em geral ele merece ter um Oscar no currículo. Uma pena que venha por esse filme.
                Que não gostei, inclusive. Em geral, curto o Iñárritu. Birdman foi um dos meus favoritos anos passado. Esse filme é a definição maior de “trying too hard” – a pessoa DORMIU NUMA CARCAÇA, galera. Se isso não é forçar demais a barra, não sei o que é.
                Achei o filme longo, desnecessário, monótono, azul e um pouco óbvio demais com certos comentários sobre direitos dos índios americanos (o que não seria um problema em si se a edição do filme não tentasse muito ser artística com composições de imagens metafóricas de sonho. Ou você brinca de metáfora ou você brinca de comentário escancarado. Os dois? Fode o tom do seu filme). De positivo tenho a dizer: Tom Hardy (can I get an Amen?) e o fato de que os índios não falam inglês.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Leonardo diCaprio), Melhor Ator Coajuvante (Tom Hardy), Melhor Cinematografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Maquiagem, Melhor Efeito Visual, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição, Melhor Figurino
Deve levar: Melhor Ator Principal. Gostaria muito de Melhor Ator Coadjuvante. Pessoalmente, não queria bem Melhor Filme nem Melhor Diretor, mas né? Um dos dois deve levar (se não os dois). Num mundo ideal, levaria Melhor Diretor e perderia Melhor Filme para A Grande Aposta. 
Deve melhor Melhor Cinematografia pq "ai meu Deus, filmado com luz natural!!!!". Sem desmerecer esse feito, por quê? Só porque você pode não quer dizer que deveria, pq a iluminação desse filme cansa demais os olhos. 

O quarto de Jack


(Room. Lenny Abrahamson, 2015)

                Vamos falar de coisa séria agora: o que é a atuação dessa criança, e como ela não foi indicada? Pelo amor de Deus, galera, prestenção.
                The Room é o meu favorito dessa lista, de longe. Lindo filme, fotografia fantástica, ótima história, atuação impressionante tanto da Brie Larson (a mãe) quanto do Jacob Tremblay (o Jack do título) e se você precisar ver apenas um filme da lista dos melhores desse ano, faça um favor a si mesmo e escolha esse.
Tudo o que sabia quando comecei a assistir é que uma mãe e um filho moravam num quarto pequeno pq sim. Não quero contar mais detalhes caso você queira ver esse filme e prefira assistir sem preparação (como eu fiz, e foi uma excelente escolha). Só tenho a dizer que é amor, e que se todas as indicações fossem nesse nível, não teria mais do que reclamar.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Atriz Principal (Brie Larson), Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado
Deve levar: se existe justiça nesse mundo, Melhor Atriz Principal. Se existisse justiça nesse mundo, Jacob Tremblaylevaria Melhor Ator Principal, mas acho que o mundo não tinha mais condições de não dar esse prêmio pro diCaprio, então nem indicação ele levou.

Spotlight


(Spotlight. Tom McCarthy, 2015)

                Spotlight conta a história de um grupo de jornalistas que descobre o escândalo de padres pedófilos na igreja católica. Ponto final.
                Filmes que são perfeitamente resumidos em uma frase, em geral, não são bons filmes. Filmes baseados em fatos reais que são perfeitamente resumidos em uma frase quase nunca são bons filmes. Ainda mais quando seguem a fórmula de narração ainda presa a uma estrutura escrita e ficam ainda mais tradicionais e sem graça. 
                A história desse filme é interessante. O livro dessa história seria ótimo. O filme em si? É ok. Não é ofensivo, tem atores bons, Mark Ruffalo é sempre uma graça, mas... bleh. O filme como ferramenta narrativa visual foi tão mal utilizado que seria engraçado se não fosse tão comum. O fato desse filme estar indicado para Melhor Diretor e Melhor Edição é um tapa na cara da sociedade.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Melhor Atriz Coadjuvante (Rachael McAddams), Melhor Roteiro Original, Melhor Edição
Deve levar:  risos ao fundo
Tá, mentira. Pode levar Melhor Roteiro Original.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Oscar 2015



E o Oscar 2015 chegou, minha gente. E, pela primeira vez, o Oscar mais branco de todos os tempos não é patrocinado pelo Pirate Bay (foram semanas difíceis, amigo, não me abandone novamente).
Dessa vez, nem dá mais pra fingir direito que alguém se importa. Ele existe, o mesmo filme batido vai ganhar, pessoas vão comentar do vestido da Angelina Jolie, a Jennifer Lawrence deve cair em algum momento, espero pelo menos uma piada de 50 tons de cinza, e depois todo mundo volta a ignorar este momento, assim como deve ser.
Foi o mesmo que tomar café no Starbucks: você sabe que vai ser fraco, e ainda assim fica desapontado quando termina.
O Oscar de 2015 está um ótimo reflexo do ano passado: o cinema mainstream americano não está mais conseguindo lidar com a vida. Dos oito indicados deste ano, apenas dois não são baseados em fatos reais (sem surpresas, os que eu mais gostei). Criatividade não existe mais, então bora adaptar de livros e/ou contar uma história emocionante de alguém que sofreu/lutou/morreu pelo aprimoramento da raça humana. Estou cansada de bater na mesma tecla em todo post que faço do Oscar, mas Deus meu, será que dá para parar de tentar criar tensão em filme baseados em fatos reais sobre o que vai acontecer quando todo mundo sabe muito bem o que vai acontecer, já que é por isso que o filme foi feito? Ninguém ia fazer um filme de um cara que tentou e NÃO CONSEGUIU desvendar o código secreto de guerra nazista, sabe. Tome tento, Hollywood.

Agora, sem mais delongas, um Oscar protagonista-de-malhação-insosso-desse-anos apresenta (na ordem em que eu assisti):

[Já disse antes, mil vezes, mas não custa nada repetir: minha opinião, você tem o direito de estar errado, liberdade de expressão, bla bla bla]


O Grande Hotel Budapeste


(The Grand Budapest Hotel. Wes Anderson, 2014)

Esse é, sem a menor dúvida, o meu favorito deste ano. Este eu assisti porque realmente queria, quando saiu no ano passado, e não simplesmente porque estava na lista do Oscar e eu tenho uma tradição a manter (olhando para você, Sniper Americano). O filme conta as peripécias de M. Gustave (Ralph Fiennes) e seu ajudante, tendo altas aventuras em clima de azaração. Ocupando o lugar de “Comédia Cult Deste Ano Que É Provavelmente Melhor Do Que 80% Da Lista Mas Jamais Ganhará Porque É Uma Comédia E A Academia Precisa Premiar Filme Sério”, O Grande Hotel Budapeste é um ótimo filme do Wes Anderson, que quando acerta o tom de fantasia e absurdo, sem ir demais para o pseudocult da coisa, é fantástico.
Indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor; Melhor Roteiro Original; Melhor Montagem; Melhor Figurino; Melhor maquiagem; Melhor Fotografia; Melhor Direção de Arte; Melhor Trilha Sonora.
O que deve levar: Eu apostaria em Melhor Roteiro Original – o filme pode ter perdido no Globo de Ouro, mas levou o BAFTA, então é de se considerar. Claro, pode ir pra Birdman no lugar desse, mas a esperança é a última que morre. Como sempre, não vou chutar técnicos porque nunca acerto.
O que merecia levar: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Um dia, ainda verei uma comédia levar o prêmio máximo, só no aguardo aqui.


Birdman (A Inesperada Virtude da Ignorância)


(Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance. Alejando Gonzáles Iñárritu, 2014)

Comecei a ver este filme completamente no escuro. Sabia absolutamente nada dele. O que foi uma coisa boa, porque assim não tinha opinião alguma formada a respeito. Um dos poucos dessa lista que não é baseado em fatos reais (Glória, Aleluia), Birdman é um dos mais válidos deste ano. Contando a história da obsessão de Riggan Thomson (Michael Keaton) por ser reconhecido como um ator de verdade, e não apenas um cara que ficou famoso por interpretar um super-herói no passado, Birdman foi onde Ela não foi ano passado: loucura. Podia ter aprofundado mais (o terço final do filme é de longe sua parte mais interessante e podia ter ocupado mais espaço), mas mesmo assim, é um bem válido.
Embora esse filme esteja super cotado para ganhar Melhor Cinematografia, esta foi a coisa que mais me irritou. Eu entendi o propósito da cinematografia do filme, compreendo que ela foi montada para fazer parte do filme de modo orgânico, e que o próprio estilo reflete o tumulto interior do personagem, que foi extremamente bem feita e o caralho a quatro que críticos curtem falar. Mas nada disso muda o fato de que rodar a câmera quando os personagens falam me lembra imediatamente de um anime.
Indicações: Melhor filme; Melhor Direção (Iñárritu); Melhor Ator Principal (Michael Keaton); Melhor Roteiro Original; Melhor Ator Coadjuvante (Edward Norton); Melhor Atriz Coadjuvante (Emma Stone); Melhor Cinematografia; Melhor Mixagem de Som; Melhor Edição de Som.
Deve levar: Esse filme é nossa maior esperança de Boyhood não levar Melhor Filme e Melhor Direção, e torcerei até o fim dos tempos para que isso aconteça. Deve levar Melhor Cinematografia.

A teoria de tudo

 (The Theory of Everything. James Marsh, 2014)

Ok, pergunta rápida: você sabe quem é Stephen Hawking? Ótimo, ótimo. E sabe se ele está vivo ou morto? Isso mesmo! Ele está vivo! Sabe o que isso quer dizer? Que todas as cenas em que o filme tenta passar tensão sobre o futuro do personagem são completamente inúteis porque todo mundo sabe que o cara não morreu.
Olha, eu não sabia patavinas sobre o Stephen Hawking – a não ser que ele falava por computador e era um super gênio. Depois do filme, sei que ele fala por computador, é um super gênio e tem um ótimo senso de humor. E é isso. Um avanço, claro, mas por duas horas de filme, era de se esperar mais.
O filme não é bem a história dele, mas sim a da esposa dele, Jane (Felicity Jones). Por isso, o filme é na verdade um romance + um drama sobre ciência vs. religião, que eles tentam muito, mas muito forte encaixar na narrativa. O problema disso é que, pessoalmente, eu não ligo pro romance dos dois. Um romance é um romance é um romance. Me interessaria bem mais pelas teorias sobre o universo do cara – que até que são comentadas, mas não a fundo, e não o suficiente. Mas, dentro do propósito do filme, é ok. E Felicity Jones faz um excelente trabalho humanizando um personagem que poderia ser facilmente endeusado ou demonificado – uma pena que ninguém repara muito dela ao lado do Hawking na cadeira de rodas.
Eddie Redmayne (de Les Miserables) interpreta Hawking, e como todos sabemos, interpretar alguém com alguma deficiência física é praticamente um Oscar na sua mão.
Indicações: Melhor Filme; Melhor Trilha Sonora Original; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Atriz Principal (Felicity Jones); Melhor Ator Principal (Eddie Redmayne)
Deve levar: Melhor Ator Principal. Pode ser que leve Melhor Roteiro Adaptado, e muito antes este do que Sniper Americano.


Sniper americano


(American Sniper. Clint Eastwood, 2014)

Honestamente? Já vi propagandas nazistas mais sutis que esse filme.
Puta que me pariu, América. A gente sabe do seu patriotismo loucura. O mundo sabe que vocês têm um complexo de superioridade infinito. Mas nesse nível? Em 2015? E sendo indicado como um dos melhores filmes produzidos pelo setor em um período de 365 dias?? Vergonhoso.
Clint Eastwood está de volta, fazendo o que ele sempre faz: masturbando o ufanismo americano no cinema descaradamente. Esse é o tipo de filme que, a não ser que você seja americano, não dá pra engolir. E, mesmo sendo americano, há restrições. Conta a história de Chris Kyle (Bradley Cooper), um soldado com a personalidade de uma caixa de papelão que é o Messias com uma arma na mão, e mata todos. Os muçulmanos são chamados de “selvagens” o filme todo, todos são horríveis e animais e merecem a morte, o personagem-título está “lutando pelo bem de seu país” e não se arrepende ou entra em conflito sobre as mortes que causou... exausta, só de escrever isso. Perda de tempo ofensiva e lavagem cerebral mal feita.
Mas nada disso importa diante da coisa mais fantástica desse filme: A BONECA. Sério. Até agora, não sei como lidar com a boneca. Em uma cena, Bradley Cooper está conversando com a esposa, segurando o filho bebê. Exceto que, após um corte de cena, não é mais um bebê de verdade, mas é uma boneca. Uma boneca extremamente falsa. O filho da Bella no Crepúsculo era mais real do que essa boneca. Após a boneca, nada mais poderá ser levado a sério em relação a esse filme. UMA BONECA, CARA. Não. Não. Me recuso.
Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator (Bradley Cooper); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Edição; Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som
Deve levar: eu vou ser bem dessas e vou pedir ao universo que essa porra não leve nada além do desdém universal, porque um filme que usa uma boneca tão falsa e deixa a cena após a edição final não merece a vida.

Boyhood


(Boyhood. Richard Linklater, 2014)

E esse é o filme de que todos estão falando. Porque esse é o filme que demorou mais de dez anos para ser filmado! Não é impressionante! Onze anos, isso que é compromisso!
Sabe o que isso me lembra? Quando você está na sua casa, assistindo um reality show de talentos (tipo X Factor, American Idol, The Voice) e um concorrente faz um discurso chorando de que abandonou trabalho/faculdade/escola/casamento para participar do programa e essa é a única chance que ele tem e...e....e... quem se importa? Desculpa, alguém pediu para você fazer isso? Pq, ok, vc quer gastar onze anos filmando um filme, vai com Deus. Mas não use somente esse fato para que seu filme seja notado. Porque Boyhood não tem NADA demais. Nada. Nadinha. Exceto pelo fato de que foi filmado ao longo de onze anos. O imperador está nu e não tenho problema nenhum em dizer isso em voz alta.
Entendo o que o diretor quis passar, entendo que o propósito do filme é ser um reflexo da vida em tempo real, de uma vida comum, genérica, o que faria dele um retrato universal da vida. Mas, gente, desculpa mundo, e podem vir até a minha casa e tirar minha carteirinha de pseudocult, mas se for pra ver a vida de um adolescente americano hétero branco genérico, eu tenho a minha própria vida de adulta hétero branca genérica latinoamericana. Existem momentos de certo interesse no filme (como quando o segundo marido começa a beber), mas não existe nada que segure a atenção por quase três horas. E todo mundo sabe que essa desgraça vai ganhar pq AI MEU DEUS, ONZE ANOS!
Fico só no aguardo de quando filmarem um mesmo filme por 20 anos. Te vejo no Oscar de 2035.
Indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor (Richard Linklater); Melhor Ator Coadjuvante (Ethan Hawke); Melhor Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette); Melhor Roteiro Original
Deve levar: Melhor Filme é uma possibilidade gigante. Melhor Diretor deve ir mesmo pro Iñárritu, então chance bem menor dessa. Melhor Atriz Coadjuvante é possível também, mas eu honestamente preferia a Keira Knightley.
Merecia levar: um soco bem dado na cara pra largar de ser pretensioso.

O jogo da imitação


(The Imitation Game. Morten Tydlum, 2014)

Benedict Cumbartch interpreta um gênio gay britânico antissocial. O mundo choca, não é mesmo?
O jogo da imitação conta a história de um homem que decodificou um código alemão super importante na segunda guerra mundial e com isso ajudou a encurtar a guerra em sei lá quantos anos. O que é meio que a premissa da coisa, então o fato do filme gastar 1/3 do seu tempo na coisa toda do será-que-ele-vai-conseguir-mesmo-quando-todos-os-outros-falharam um puta desperdício de tempo. Até porque, a parte mais interessante, a parte que valeria a pena ser discutida (spoiler alert/) vem bem espremida no final: quando eles desvendam o código, não podem deixar o inimigo descobrir, então precisam fingir que não sabem quando a Alemanha mata pessoas, e, de certa forma, são “responsáveis” por essas mortes. Só as ramificações ideológicas e morais disso já daria um filme. Mas não. Imagina. Para quê discutir coisas que realmente podem fazer seu público pensar, não é mesmo? Vamos explicar tudo em uma narração voice-over e pular para a próxima cena rapidinho – não podemos deixar que o mundo pensa que a Inglaterra tem qualquer tipo de culpa.
Fora isso, nada demais: Benedict Cumbartch interpreta Sherlock + Sheldon Cooper – o filme diz que ele é gay, e não preciso de uma cena de sexo a la Brokeback Mountain para provar isso, mas ao menos ele adulto é tão completamente assexuado e desprovido de interesse humano que duvido que ele curta qualquer coisa, independente dos órgãos genitais; Keira Knightley é a melhor coisa desse filme; ele salva o mundo no final e os últimos 3 minutos mostram como o mundo foi injusto com ele (mas bem rápido, lembrem-se, Inglaterra é amor, olha só, a Rainha perdoou o cara por ser gay [?] no final!).
Indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor (Morten Tyldum); Melhor Ator Principal (Benedict Cumberbatch); Melhor Atriz Coadjuvante (Keira Knightley); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Edição; Melhor Trilha Sonora Original; Melhor Produção
Deve levar: Se levar algum dos principais, e muito se levar, Melhor Atriz Coadjuvante. Mas acho que Boyhood leva essa.


Selma


(Selma. Ava DuverNay, 2014)

Narrando a história das caminhadas de Selma (uma cidade do Alabama) para Washington, pedindo o direito real do voto negro – e de como galera não estava querendo deixar e matou/agrediu geral, Selma foi, para mim, uma coisa que 12 anos de escravidão não foi ano passado: relevante.
Todo mundo sabe que escravidão é algo ruim. Todo mundo sabe que é bárbaro e é absurdo. Você não encontra mais negros amarrados no tronco com frequência. Mas o tipo de racismo e ignorância cega em Selma? É só ligar a TV.
O filme tem vários problemas, é construído em cima de clichês (posso ter chorado na cena da marcha dos negros apanhando em câmera lenta ao som de gospel, mas isso não diminui a manipulação emocional descarada da cena) e faz tentativas muito rasas de humanizar seus personagens para além de seus nomes e títulos, já conhecidos pela história. Ainda assim, Selma é um filme válido (mesmo que não sólido), e embora não vá ganhar melhor filme jamais, merece bem mais estar nesta lista do que aquela merda branca, azul e vermelha do Sr. Eastwood.
Indicações: Melhor Filme; Melhor Música Original
Deve levar: Melhor Música Original


Whiplash

(Whiplash. Damien Chazelle, 2014)

Todo o ano, o Oscar tem um filme que ninguém nunca ouviu falar – aquele que o Zé Wilker gostaria mais e me daria mais trabalho para encontrar no Pirate Bay. Mas, em 2015, não só Zé Wilker não está mais entre nós, como Pirate Bay saiu do ar e este filme é um dos meu favoritos da lista.
Assim como Nebraska no ano passado, esse é um filme que ninguém viu/vai ver, e ninguém vai se importar, mas que merecia mesmo ser assistido. Contando a história de um condutor de orquestra louco do pó (J. K. Simmons) e um de seus estudantes (Milles Teller), que vai a extremos tentando ser o melhor possível.
Interessante, com um ótimo pacing, bem atuado, bem editado, esse filme é uma belezinha e com certeza vale duas horas da sua vida. Filme bem mais qualquer-outra-premiação-do-mundo-do-que-as-americanas, Whiplash não faz o perfil-Oscar e não vai ganhar Melhor Filme. Meu voto é, eternamente, em J. K. Simmons para Ator Coadjuvante, mas honestamente não assisti todos os filmes dos outros indicados, logo...
Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (J. K. Simmons); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Edição; Melhor Edição de Som
Deveria levar: Melhor Ator Coajuvante, Melhor Edição de Som