Porque se o José Wilker pode, eu também posso.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Oscar 2016

E mais um ano chega, mais um horário de verão termina, e mais um Oscar é transmitido com tradução simultânea na TNT. Cada vez mais, o Oscar tá ali porque acontece todo ano e ninguém liga muito – é tipo aquele caminho que você faz quando dirige da casa pro trabalho. Liga o piloto automático e só vai. É tipo o “Altas Horas”, programa mais esquecível do mundo que ainda existe na programação da TV. É tipo aquele doce de gelatina que sua tia faz e ninguém gosta muito mas ainda assim tem em todo churrasco de domingo, e como está em cima da mesa mesmo você acaba comendo.

A única diferença deste Oscar para o dos últimos anos foi apenas uma: todos os filmes foram super fáceis de achar no PirateBay. O que já faz dele um Oscar melhor do que o de 2013, por exemplo. 

Sem mais delongas, os indicados a Melhor Filme deste ano na ordem que aparecem no site oficial:

A Grande Aposta

(The Big Short. Adam McKay, 2015)

Aí me chamaram pra ver esse filme no cinema. Sobre o que é, quis saber. “Sobre a quebra do sistema de hipotecas americano”.
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Sem surpresas que não estava exatamente querendo assistir, né?
A Grande Aposta foi uma grata surpresa não só por (a) não ser a coisa mais chata do mundo (é bem entretente, na verdade) e (b) ser capaz de explicar economia ao menos superficialmente para que eu acompanhasse a narrativa, mas por (c) usar o meio cinematográfico para contar uma história.
Isso é algo que vem me incomodando faz um tempo, e só me toquei o quanto no meio da minha maratona Oscar: cada vez menos filmes estão usando as possibilidades visuais e criativas do cinema pra contar uma história. Explico: um filme é um meio visual, diferente de um livro (ou um roteiro) que é um meio escrito. Sim, sei que isso é óbvio e até o Lula admite saber essa diferença, mas por conta disto, um filme deveria ser mais do que apenas um roteiro televisionado. Ele deveria aproveitar a composição de cena, a edição, a trilha sonora, a computação gráfica, o caralho a quatro disponível no meio tridimensional e enriquecer e alterar a maneira como a narrativa é passada.
A Grande Aposta usa e abusa do fato de ser um filme, introduzindo cenas e cortes e edições que um livro não seria capaz de fazer com a mesma eficácia. Isso está cada vez mais raro de tal forma, que seriamente gostaria que levasse o prêmio de melhor filme. No mais, é uma ótima escolha dessa lista e recomendo mesmo se você, como eu, nunca conseguiu entender economia.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Christian Bale), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição
Deve levar: Melhor Roteiro Adaptado, a não ser que perca para O quarto de Jack. Eu gostaria, de verdade, que levasse Melhor Filme, mas esse deve ser O Regresso mesmo. Melhor Edição deve ser dele tb.


Ponte dos Espiões 


(Bridge of Spies. Steven Spielberg, 2015)

                Esse é um filme do Spielberg. Com o Tom Hanks. Sobre um homem de princípios e a guerra fria.
                Podia parar a descrição por aqui, porque você já sabe o resto.
                Tom Hanks segura o filme sozinho só por ser Tom Hanks, interpretando um advogado que defende um espião russo acusado de traição em plena guerra fria nos EUA. O filme é baseado em fatos reais (que é outro problema que eu tenho com a ficção atual, mas posso reclamar disso outra hora) e é beeeem direção e roteiro “siga os pontos” – tudo como deve ser, sem nunca fugir do tradicional e honrando a moral e os bons costumes. É ruim? Não. É bom? Olha, não é ruim.
                Honestamente? Se alguém lembrar desse filme em 5 anos, vou ficar surpresa. Está indicado pra cumprir tabela, e vai ganhar nada além do direito de colocar “Indicado a Melhor Filme” no Oscar na capa do DVD.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coajuvante (Mark Rylance), Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Arte, Melhor Mixagem de Som
Deve levar: Minha aposta? Nada. Sempre existe a chance de Melhor Roteiro Original, mas prefiro ter fé na humanidade e apostar em Straight Outta Compton ou Divertida Mente.

Brooklyn



(Brooklyn. John Crowley, 2015)

                Também conhecido como Sofrência branca: o filme.
                Brooklyn é a história de uma imigrante irlandesa (Saoirse Ronan) que muda pros EUA pra ter uma vida melhor. E é isso. Juro. É isso. O filme se resume em uma frase. E tem mais de duas horas. Sabe o que eu podia ter feito nessas duas horas?? Podia ter reassistido 4 episódios de Parks & Rec. Você me deve 4 episódios, filme.
                Ouvi pessoas amando esse filme. Ouvi pessoas dizendo que a XXX vai levar o Oscar de melhor atriz. E para essas pessoas eu pergunto: quem machucou vocês? Porque considerar as desventuras da Moça Branca (que nem existem, porque ela sai da Irlanda com lugar pra morar e trabalho e acha um macho logo em seguida, então, oi?) enquanto nada acontece na vida normal dela como qualquer coisa além de perda de tempo e energia vai além da minha capacidade de compreensão.
                E não tenho nada contra a Ronan. Acho inclusive que ela fez um trabalho decente considerando a personagem sem personalidade (sei que ela é irlandesa, e que é tímida e... e... e...). Mas o problema dela é a falta de carisma. Como já disse (e repito todos os anos), talento e carismas não necessariamente vão juntos, e você segurar um filme que é basicamente você não é pra qualquer um. Matt Damon consegue em Perdido em Marte. Tom Hanks consegue em Jogo de espiões. James Franco não conseguiu em 127 horas e Saoirse Ronan definitivamente não consegue em Brooklyn.
                E, finalmente, só tenho a dizer que um filme que termina com freeze frame em 2016 não merece o ar que respira.
Indicações: Melhor Filme, Melhotr Atriz Principal (Saoirse Ronan), Melhor Roteiro Adaptado
Deve levar: existe uma chance real de levar Melhor Atriz Principal, mas minha torcida vai pra Brie Larson até o fim (ou pra Cate Diva Blanchett em Carol, que não vi, não particularmente pretendo ver, mas meu amor pela Cate é assim, incondicional).
Merecia levar: um tapa na cara pra ver se encontra Jesus
               

Mad Max: Estrada da Fúria

(Mad Max: Fury Road. George Miller, 2015)

                Quando vi a lista de indicações, dois filmes me surpreenderam. Mad Max foi um deles. A Academia indicar para o prêmio máximo um filme de ação futurista com quase nenhum diálogo e perseguição a cada quatro trocas de cenas? Pouca importa se o filme é válido ou não, só a indicação já abre precendente para um futuro menos esnobe (esperamos).
                Especialmente curto que Mad Max foi indicado e oscar baits óbvios ficaram de fora dessa lista (olhando pra você, Garota dinamarquesa).
                Sobre o filme: gostei. Bem mais do que esperava. O primeiro Mad Max é um dos filmes mais chatos que já vi, em que nada acontece por mais de uma hora (sei porque apostei com o meu irmão quando alguma coisa ia finalmente acontecer no filme. Meu palpite foi 1h15min e eu ganhei) então estava meio cética em relação a este. Mas de similar os dois têm apenas o nome e a ambientação.
                Muito bem editado e atuado (Tom Hardy é meu pastor e nada me faltará), Mad Max é um filme que consegue criar um ambiente novo e surreal que é mostrado pelo visual e por detalhes, e não por diálogos e exposição. É um filme-filme e não um filme-livro. E tem todo o meu amor e respeito por isso.
                Claro que não vai ganhar Melhor Filme. Ninguém realmente sonha. Mas sua indicação é um ótimo sinal pro futuro, deve ganhar vários (se não todos) prêmios técnicos e tomara que a inevitável continuação seja tão boa quanto. E tenha o Tom Hardy. Amén.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Cinematografia, Melhor Edição, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem, Melhor Efeito Visual, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som
Deve levar: todos os prêmios técnicos do universo. Pense Senhor dos Aneis no passado.


Perdido em Marte


(The Martian. Ridley Scott, 2015)

                Esse foi a minha segunda surpresa. Porque Perdido em Marte é uma comédia, e comédia não são indicadas a não ser que sejam dirigidas pelo Woody Allen. Ridley Scott é um diretor reconhecido, claro, mas ainda assim: comédia. Comédia com ficção científica e um certo drama no espaço, mas não deixa de ser um filme com mais humor do que drama.
                De qualquer forma, é outro bom sinal, assim como Mad Max, para a possibilidade de um futuro com filmes diferentes indicados, e não apenas mais do mesmo dramalhão com filtro azul de duas horas com um protagonista sofrendo.
                Matt Damon está indicado como melhor ator (o que muito me surpreende quando XXX de O quarto de Jack não foi, mas beleza) e ele faz, como normalmente, um ótimo trabalho. O filme é basicamente ele sendo maravilhoso em Marte e é isso. É entretente, é divertido, ótimos efeitos, não posso opinar sobre a ciência da coisa como sei nada sobre o espaço, mas ouvi falar que estava ok.
                Embora tenha gostado, ainda assim tive dois grandes problemas com esse filme: 1) som. Galera, sei que Inception foi um puta filme, ainda amo mais do que muita gente na minha vida, mas precisa colocar aquele “PAM” de música de suspense a cada 5 segundos em uma cena? Certas influências devem morrer, porque isso é irritante pra caramba; 2) o filme chama de Perdido em Marte, vi no trailer que ele está perdido em Marte criando plantas, todos sabe que o filme tem mais de duas horas então é claro que ele não vai morrer nos primeiros 15minutos. Filmes podiam parar de tentar criar tensões óbvias e só seguir com a vida – pula pra próxima cena que ninguém vai morrer, caralho.
                Fora isso, bom filme. Não deve levar nada, claro, exceto talvez algum prêmio técnico. Mas válido. Pessoalmente, acho que Divertida Mente deveria ter sido indicado a Melhor Filme mais do que esse, mas o que um bom lobby e o nome do diretor não faz, não é mesmo?
Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Principal (Matt Damon), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Efeito Visual, Melhor Direção de Arte, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som
Deve levar: Sempre existe a chance de algum técnico (sou bem ruim em adivinhar técnicos, sempre fui), mas ainda acho que Mad Max tem mais chance nessa parte.

O Regresso

(The Revenant. Alejando Iñárritu, 2015)

                Unpopular opinion time: Leonardo diCaprio não merece o Oscar que vai ganhar por esse filme.
                Ele merece um Oscar? Sem a menor dúvida. Jamais me conformarei que não ganhou um por Revolutionary Road (e nem indicação, pq a Academia decidiu que indicar por Diamente de Sangue era melhor? Babacas). Ele é um ótimo ator injustiçado a um ponto que virou piada? Claramente. Essa é a melhor atuação do ano e portando merecia ser premiada? Não. Desculpa, mas não.
                Tudo o que o diCaprio faz nesse filme é grunhir e não morrer. Quero nem saber o desconforto que o ator sofreu, ou que ele dormiu numa carcaça de animal e pegou pneumonia e quase morreu. Isso pouco importa (é tipo quando você assiste, sei lá, The Voice e a pessoa fica “ai, mas eu larguei tudo para estar aqui, emprego/família/escola, só tenho essa chance!” – ninguém mandou, se não cantar bem vai ficar sem emprego/família/escola pra largar de ser besta). O que importa, por exemplo, é que Tom Hardy está melhor do que diCaprio nesse filme (o fato de que ele vai perder o Oscar pro Rocky me machuca profundamente pq Tom Hardy é vida) e ninguém nem fala dele pq o momentum Oscar é todo diCaprio. Ele vai ganhar, claramente, e em geral ele merece ter um Oscar no currículo. Uma pena que venha por esse filme.
                Que não gostei, inclusive. Em geral, curto o Iñárritu. Birdman foi um dos meus favoritos anos passado. Esse filme é a definição maior de “trying too hard” – a pessoa DORMIU NUMA CARCAÇA, galera. Se isso não é forçar demais a barra, não sei o que é.
                Achei o filme longo, desnecessário, monótono, azul e um pouco óbvio demais com certos comentários sobre direitos dos índios americanos (o que não seria um problema em si se a edição do filme não tentasse muito ser artística com composições de imagens metafóricas de sonho. Ou você brinca de metáfora ou você brinca de comentário escancarado. Os dois? Fode o tom do seu filme). De positivo tenho a dizer: Tom Hardy (can I get an Amen?) e o fato de que os índios não falam inglês.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Leonardo diCaprio), Melhor Ator Coajuvante (Tom Hardy), Melhor Cinematografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Maquiagem, Melhor Efeito Visual, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição, Melhor Figurino
Deve levar: Melhor Ator Principal. Gostaria muito de Melhor Ator Coadjuvante. Pessoalmente, não queria bem Melhor Filme nem Melhor Diretor, mas né? Um dos dois deve levar (se não os dois). Num mundo ideal, levaria Melhor Diretor e perderia Melhor Filme para A Grande Aposta. 
Deve melhor Melhor Cinematografia pq "ai meu Deus, filmado com luz natural!!!!". Sem desmerecer esse feito, por quê? Só porque você pode não quer dizer que deveria, pq a iluminação desse filme cansa demais os olhos. 

O quarto de Jack


(Room. Lenny Abrahamson, 2015)

                Vamos falar de coisa séria agora: o que é a atuação dessa criança, e como ela não foi indicada? Pelo amor de Deus, galera, prestenção.
                The Room é o meu favorito dessa lista, de longe. Lindo filme, fotografia fantástica, ótima história, atuação impressionante tanto da Brie Larson (a mãe) quanto do Jacob Tremblay (o Jack do título) e se você precisar ver apenas um filme da lista dos melhores desse ano, faça um favor a si mesmo e escolha esse.
Tudo o que sabia quando comecei a assistir é que uma mãe e um filho moravam num quarto pequeno pq sim. Não quero contar mais detalhes caso você queira ver esse filme e prefira assistir sem preparação (como eu fiz, e foi uma excelente escolha). Só tenho a dizer que é amor, e que se todas as indicações fossem nesse nível, não teria mais do que reclamar.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Atriz Principal (Brie Larson), Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado
Deve levar: se existe justiça nesse mundo, Melhor Atriz Principal. Se existisse justiça nesse mundo, Jacob Tremblaylevaria Melhor Ator Principal, mas acho que o mundo não tinha mais condições de não dar esse prêmio pro diCaprio, então nem indicação ele levou.

Spotlight


(Spotlight. Tom McCarthy, 2015)

                Spotlight conta a história de um grupo de jornalistas que descobre o escândalo de padres pedófilos na igreja católica. Ponto final.
                Filmes que são perfeitamente resumidos em uma frase, em geral, não são bons filmes. Filmes baseados em fatos reais que são perfeitamente resumidos em uma frase quase nunca são bons filmes. Ainda mais quando seguem a fórmula de narração ainda presa a uma estrutura escrita e ficam ainda mais tradicionais e sem graça. 
                A história desse filme é interessante. O livro dessa história seria ótimo. O filme em si? É ok. Não é ofensivo, tem atores bons, Mark Ruffalo é sempre uma graça, mas... bleh. O filme como ferramenta narrativa visual foi tão mal utilizado que seria engraçado se não fosse tão comum. O fato desse filme estar indicado para Melhor Diretor e Melhor Edição é um tapa na cara da sociedade.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Melhor Atriz Coadjuvante (Rachael McAddams), Melhor Roteiro Original, Melhor Edição
Deve levar:  risos ao fundo
Tá, mentira. Pode levar Melhor Roteiro Original.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Oscar 2015



E o Oscar 2015 chegou, minha gente. E, pela primeira vez, o Oscar mais branco de todos os tempos não é patrocinado pelo Pirate Bay (foram semanas difíceis, amigo, não me abandone novamente).
Dessa vez, nem dá mais pra fingir direito que alguém se importa. Ele existe, o mesmo filme batido vai ganhar, pessoas vão comentar do vestido da Angelina Jolie, a Jennifer Lawrence deve cair em algum momento, espero pelo menos uma piada de 50 tons de cinza, e depois todo mundo volta a ignorar este momento, assim como deve ser.
Foi o mesmo que tomar café no Starbucks: você sabe que vai ser fraco, e ainda assim fica desapontado quando termina.
O Oscar de 2015 está um ótimo reflexo do ano passado: o cinema mainstream americano não está mais conseguindo lidar com a vida. Dos oito indicados deste ano, apenas dois não são baseados em fatos reais (sem surpresas, os que eu mais gostei). Criatividade não existe mais, então bora adaptar de livros e/ou contar uma história emocionante de alguém que sofreu/lutou/morreu pelo aprimoramento da raça humana. Estou cansada de bater na mesma tecla em todo post que faço do Oscar, mas Deus meu, será que dá para parar de tentar criar tensão em filme baseados em fatos reais sobre o que vai acontecer quando todo mundo sabe muito bem o que vai acontecer, já que é por isso que o filme foi feito? Ninguém ia fazer um filme de um cara que tentou e NÃO CONSEGUIU desvendar o código secreto de guerra nazista, sabe. Tome tento, Hollywood.

Agora, sem mais delongas, um Oscar protagonista-de-malhação-insosso-desse-anos apresenta (na ordem em que eu assisti):

[Já disse antes, mil vezes, mas não custa nada repetir: minha opinião, você tem o direito de estar errado, liberdade de expressão, bla bla bla]


O Grande Hotel Budapeste


(The Grand Budapest Hotel. Wes Anderson, 2014)

Esse é, sem a menor dúvida, o meu favorito deste ano. Este eu assisti porque realmente queria, quando saiu no ano passado, e não simplesmente porque estava na lista do Oscar e eu tenho uma tradição a manter (olhando para você, Sniper Americano). O filme conta as peripécias de M. Gustave (Ralph Fiennes) e seu ajudante, tendo altas aventuras em clima de azaração. Ocupando o lugar de “Comédia Cult Deste Ano Que É Provavelmente Melhor Do Que 80% Da Lista Mas Jamais Ganhará Porque É Uma Comédia E A Academia Precisa Premiar Filme Sério”, O Grande Hotel Budapeste é um ótimo filme do Wes Anderson, que quando acerta o tom de fantasia e absurdo, sem ir demais para o pseudocult da coisa, é fantástico.
Indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor; Melhor Roteiro Original; Melhor Montagem; Melhor Figurino; Melhor maquiagem; Melhor Fotografia; Melhor Direção de Arte; Melhor Trilha Sonora.
O que deve levar: Eu apostaria em Melhor Roteiro Original – o filme pode ter perdido no Globo de Ouro, mas levou o BAFTA, então é de se considerar. Claro, pode ir pra Birdman no lugar desse, mas a esperança é a última que morre. Como sempre, não vou chutar técnicos porque nunca acerto.
O que merecia levar: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Um dia, ainda verei uma comédia levar o prêmio máximo, só no aguardo aqui.


Birdman (A Inesperada Virtude da Ignorância)


(Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance. Alejando Gonzáles Iñárritu, 2014)

Comecei a ver este filme completamente no escuro. Sabia absolutamente nada dele. O que foi uma coisa boa, porque assim não tinha opinião alguma formada a respeito. Um dos poucos dessa lista que não é baseado em fatos reais (Glória, Aleluia), Birdman é um dos mais válidos deste ano. Contando a história da obsessão de Riggan Thomson (Michael Keaton) por ser reconhecido como um ator de verdade, e não apenas um cara que ficou famoso por interpretar um super-herói no passado, Birdman foi onde Ela não foi ano passado: loucura. Podia ter aprofundado mais (o terço final do filme é de longe sua parte mais interessante e podia ter ocupado mais espaço), mas mesmo assim, é um bem válido.
Embora esse filme esteja super cotado para ganhar Melhor Cinematografia, esta foi a coisa que mais me irritou. Eu entendi o propósito da cinematografia do filme, compreendo que ela foi montada para fazer parte do filme de modo orgânico, e que o próprio estilo reflete o tumulto interior do personagem, que foi extremamente bem feita e o caralho a quatro que críticos curtem falar. Mas nada disso muda o fato de que rodar a câmera quando os personagens falam me lembra imediatamente de um anime.
Indicações: Melhor filme; Melhor Direção (Iñárritu); Melhor Ator Principal (Michael Keaton); Melhor Roteiro Original; Melhor Ator Coadjuvante (Edward Norton); Melhor Atriz Coadjuvante (Emma Stone); Melhor Cinematografia; Melhor Mixagem de Som; Melhor Edição de Som.
Deve levar: Esse filme é nossa maior esperança de Boyhood não levar Melhor Filme e Melhor Direção, e torcerei até o fim dos tempos para que isso aconteça. Deve levar Melhor Cinematografia.

A teoria de tudo

 (The Theory of Everything. James Marsh, 2014)

Ok, pergunta rápida: você sabe quem é Stephen Hawking? Ótimo, ótimo. E sabe se ele está vivo ou morto? Isso mesmo! Ele está vivo! Sabe o que isso quer dizer? Que todas as cenas em que o filme tenta passar tensão sobre o futuro do personagem são completamente inúteis porque todo mundo sabe que o cara não morreu.
Olha, eu não sabia patavinas sobre o Stephen Hawking – a não ser que ele falava por computador e era um super gênio. Depois do filme, sei que ele fala por computador, é um super gênio e tem um ótimo senso de humor. E é isso. Um avanço, claro, mas por duas horas de filme, era de se esperar mais.
O filme não é bem a história dele, mas sim a da esposa dele, Jane (Felicity Jones). Por isso, o filme é na verdade um romance + um drama sobre ciência vs. religião, que eles tentam muito, mas muito forte encaixar na narrativa. O problema disso é que, pessoalmente, eu não ligo pro romance dos dois. Um romance é um romance é um romance. Me interessaria bem mais pelas teorias sobre o universo do cara – que até que são comentadas, mas não a fundo, e não o suficiente. Mas, dentro do propósito do filme, é ok. E Felicity Jones faz um excelente trabalho humanizando um personagem que poderia ser facilmente endeusado ou demonificado – uma pena que ninguém repara muito dela ao lado do Hawking na cadeira de rodas.
Eddie Redmayne (de Les Miserables) interpreta Hawking, e como todos sabemos, interpretar alguém com alguma deficiência física é praticamente um Oscar na sua mão.
Indicações: Melhor Filme; Melhor Trilha Sonora Original; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Atriz Principal (Felicity Jones); Melhor Ator Principal (Eddie Redmayne)
Deve levar: Melhor Ator Principal. Pode ser que leve Melhor Roteiro Adaptado, e muito antes este do que Sniper Americano.


Sniper americano


(American Sniper. Clint Eastwood, 2014)

Honestamente? Já vi propagandas nazistas mais sutis que esse filme.
Puta que me pariu, América. A gente sabe do seu patriotismo loucura. O mundo sabe que vocês têm um complexo de superioridade infinito. Mas nesse nível? Em 2015? E sendo indicado como um dos melhores filmes produzidos pelo setor em um período de 365 dias?? Vergonhoso.
Clint Eastwood está de volta, fazendo o que ele sempre faz: masturbando o ufanismo americano no cinema descaradamente. Esse é o tipo de filme que, a não ser que você seja americano, não dá pra engolir. E, mesmo sendo americano, há restrições. Conta a história de Chris Kyle (Bradley Cooper), um soldado com a personalidade de uma caixa de papelão que é o Messias com uma arma na mão, e mata todos. Os muçulmanos são chamados de “selvagens” o filme todo, todos são horríveis e animais e merecem a morte, o personagem-título está “lutando pelo bem de seu país” e não se arrepende ou entra em conflito sobre as mortes que causou... exausta, só de escrever isso. Perda de tempo ofensiva e lavagem cerebral mal feita.
Mas nada disso importa diante da coisa mais fantástica desse filme: A BONECA. Sério. Até agora, não sei como lidar com a boneca. Em uma cena, Bradley Cooper está conversando com a esposa, segurando o filho bebê. Exceto que, após um corte de cena, não é mais um bebê de verdade, mas é uma boneca. Uma boneca extremamente falsa. O filho da Bella no Crepúsculo era mais real do que essa boneca. Após a boneca, nada mais poderá ser levado a sério em relação a esse filme. UMA BONECA, CARA. Não. Não. Me recuso.
Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator (Bradley Cooper); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Edição; Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som
Deve levar: eu vou ser bem dessas e vou pedir ao universo que essa porra não leve nada além do desdém universal, porque um filme que usa uma boneca tão falsa e deixa a cena após a edição final não merece a vida.

Boyhood


(Boyhood. Richard Linklater, 2014)

E esse é o filme de que todos estão falando. Porque esse é o filme que demorou mais de dez anos para ser filmado! Não é impressionante! Onze anos, isso que é compromisso!
Sabe o que isso me lembra? Quando você está na sua casa, assistindo um reality show de talentos (tipo X Factor, American Idol, The Voice) e um concorrente faz um discurso chorando de que abandonou trabalho/faculdade/escola/casamento para participar do programa e essa é a única chance que ele tem e...e....e... quem se importa? Desculpa, alguém pediu para você fazer isso? Pq, ok, vc quer gastar onze anos filmando um filme, vai com Deus. Mas não use somente esse fato para que seu filme seja notado. Porque Boyhood não tem NADA demais. Nada. Nadinha. Exceto pelo fato de que foi filmado ao longo de onze anos. O imperador está nu e não tenho problema nenhum em dizer isso em voz alta.
Entendo o que o diretor quis passar, entendo que o propósito do filme é ser um reflexo da vida em tempo real, de uma vida comum, genérica, o que faria dele um retrato universal da vida. Mas, gente, desculpa mundo, e podem vir até a minha casa e tirar minha carteirinha de pseudocult, mas se for pra ver a vida de um adolescente americano hétero branco genérico, eu tenho a minha própria vida de adulta hétero branca genérica latinoamericana. Existem momentos de certo interesse no filme (como quando o segundo marido começa a beber), mas não existe nada que segure a atenção por quase três horas. E todo mundo sabe que essa desgraça vai ganhar pq AI MEU DEUS, ONZE ANOS!
Fico só no aguardo de quando filmarem um mesmo filme por 20 anos. Te vejo no Oscar de 2035.
Indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor (Richard Linklater); Melhor Ator Coadjuvante (Ethan Hawke); Melhor Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette); Melhor Roteiro Original
Deve levar: Melhor Filme é uma possibilidade gigante. Melhor Diretor deve ir mesmo pro Iñárritu, então chance bem menor dessa. Melhor Atriz Coadjuvante é possível também, mas eu honestamente preferia a Keira Knightley.
Merecia levar: um soco bem dado na cara pra largar de ser pretensioso.

O jogo da imitação


(The Imitation Game. Morten Tydlum, 2014)

Benedict Cumbartch interpreta um gênio gay britânico antissocial. O mundo choca, não é mesmo?
O jogo da imitação conta a história de um homem que decodificou um código alemão super importante na segunda guerra mundial e com isso ajudou a encurtar a guerra em sei lá quantos anos. O que é meio que a premissa da coisa, então o fato do filme gastar 1/3 do seu tempo na coisa toda do será-que-ele-vai-conseguir-mesmo-quando-todos-os-outros-falharam um puta desperdício de tempo. Até porque, a parte mais interessante, a parte que valeria a pena ser discutida (spoiler alert/) vem bem espremida no final: quando eles desvendam o código, não podem deixar o inimigo descobrir, então precisam fingir que não sabem quando a Alemanha mata pessoas, e, de certa forma, são “responsáveis” por essas mortes. Só as ramificações ideológicas e morais disso já daria um filme. Mas não. Imagina. Para quê discutir coisas que realmente podem fazer seu público pensar, não é mesmo? Vamos explicar tudo em uma narração voice-over e pular para a próxima cena rapidinho – não podemos deixar que o mundo pensa que a Inglaterra tem qualquer tipo de culpa.
Fora isso, nada demais: Benedict Cumbartch interpreta Sherlock + Sheldon Cooper – o filme diz que ele é gay, e não preciso de uma cena de sexo a la Brokeback Mountain para provar isso, mas ao menos ele adulto é tão completamente assexuado e desprovido de interesse humano que duvido que ele curta qualquer coisa, independente dos órgãos genitais; Keira Knightley é a melhor coisa desse filme; ele salva o mundo no final e os últimos 3 minutos mostram como o mundo foi injusto com ele (mas bem rápido, lembrem-se, Inglaterra é amor, olha só, a Rainha perdoou o cara por ser gay [?] no final!).
Indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor (Morten Tyldum); Melhor Ator Principal (Benedict Cumberbatch); Melhor Atriz Coadjuvante (Keira Knightley); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Edição; Melhor Trilha Sonora Original; Melhor Produção
Deve levar: Se levar algum dos principais, e muito se levar, Melhor Atriz Coadjuvante. Mas acho que Boyhood leva essa.


Selma


(Selma. Ava DuverNay, 2014)

Narrando a história das caminhadas de Selma (uma cidade do Alabama) para Washington, pedindo o direito real do voto negro – e de como galera não estava querendo deixar e matou/agrediu geral, Selma foi, para mim, uma coisa que 12 anos de escravidão não foi ano passado: relevante.
Todo mundo sabe que escravidão é algo ruim. Todo mundo sabe que é bárbaro e é absurdo. Você não encontra mais negros amarrados no tronco com frequência. Mas o tipo de racismo e ignorância cega em Selma? É só ligar a TV.
O filme tem vários problemas, é construído em cima de clichês (posso ter chorado na cena da marcha dos negros apanhando em câmera lenta ao som de gospel, mas isso não diminui a manipulação emocional descarada da cena) e faz tentativas muito rasas de humanizar seus personagens para além de seus nomes e títulos, já conhecidos pela história. Ainda assim, Selma é um filme válido (mesmo que não sólido), e embora não vá ganhar melhor filme jamais, merece bem mais estar nesta lista do que aquela merda branca, azul e vermelha do Sr. Eastwood.
Indicações: Melhor Filme; Melhor Música Original
Deve levar: Melhor Música Original


Whiplash

(Whiplash. Damien Chazelle, 2014)

Todo o ano, o Oscar tem um filme que ninguém nunca ouviu falar – aquele que o Zé Wilker gostaria mais e me daria mais trabalho para encontrar no Pirate Bay. Mas, em 2015, não só Zé Wilker não está mais entre nós, como Pirate Bay saiu do ar e este filme é um dos meu favoritos da lista.
Assim como Nebraska no ano passado, esse é um filme que ninguém viu/vai ver, e ninguém vai se importar, mas que merecia mesmo ser assistido. Contando a história de um condutor de orquestra louco do pó (J. K. Simmons) e um de seus estudantes (Milles Teller), que vai a extremos tentando ser o melhor possível.
Interessante, com um ótimo pacing, bem atuado, bem editado, esse filme é uma belezinha e com certeza vale duas horas da sua vida. Filme bem mais qualquer-outra-premiação-do-mundo-do-que-as-americanas, Whiplash não faz o perfil-Oscar e não vai ganhar Melhor Filme. Meu voto é, eternamente, em J. K. Simmons para Ator Coadjuvante, mas honestamente não assisti todos os filmes dos outros indicados, logo...
Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (J. K. Simmons); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Edição; Melhor Edição de Som
Deveria levar: Melhor Ator Coajuvante, Melhor Edição de Som

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Cinquenta tons de cinza






Cinquenta tons de cinza

Ou

Bella Swan cresceu e tem vida sexual ativa


Esclarecimento: não, eu não li o livro. Comecei, parei antes mesmo de chegar no sexo – era mal escrito demais para aguentar. E não, eu não tinha a intenção de ver este filme. Uma amiga me chamou para o cinema, e chegando lá descobri que já tínhamos visto todos os filmes passando, com exceção de: Bob Esponja e 50 tons. Honestamente, preferia Bob Esponja, mas...
Não vou entrar em uma discussão sobre como esse livro/filme mascara violência/abuso emocional como romantismo, ou como não é uma descrição real de sadomasoquismo. O que vou dizer é: esse filme é um porre.
Sério.
Esse deve ter sido o filme mais monótono que vi nos últimos anos. NADA ACONTECE por duas horas. É irreal. Esse filme é muito, muito, muito chato. Esse filme é sua aula de matemática do ensino médio, oito da manhã numa quinta. Esse filme é sua tia contando tudo sobre a viagem que ela fez para a praia (pela quarta vez). Esse filme é a semifinal de um campeonato de curling.
Ah, mas e o sexo?, você se pergunta. O livro é praticamente isso, cadê sexo no filme? Pelo menos isso é bom, né?
*risos ao fundo*
Vamos começar pelo fato de que a química entre os dois é inexistente. Tem mais química entre um moleque de treze anos e sua mão. Vamos continuar com o fato de que as cenas de sexo são editadas a ponto de esterilidade, sem emoção, mecânicas e completamente entediantes. Não sei como é no livro, mas se ISSO é o suficiente pra excitar a galera, estou genuinamente triste pela sexualidade humana. E vamos terminar com o fato de que, em um filme que tem um de seus pontos explorar a sexualidade, ninguém nunca tem um orgasmo. Triste.

[Spoilers? Não vou nem responder esta]


Cena: Mocinha do Filme™ entrevista Par Romântico™

MOCINHA DO FILME
Oi, eu sou a Personagem Principal deste filme, e como tal eu não tenho personalidade alguma além de ser desastrada (o que é mostrado apenas uma vez e nunca mais mencionado). Estou aqui para ser o mais bege possível e conhecer o meu macho. Pode ser?

RECEPCIONISTA GATA
Clara, só passar por aquela porta.

MOCINHA DO FILME
*tropeça e cai*
Ai, meu Deus, como sou desastrada!

PAR ROMÂNTICO
Tudo bem. Contra todas as possibilidades reais da vida, estou instantaneamente interessado em você.

MOCINHA DO FILME
*olha para o par romântico*

PAR ROMÂNTICO
*olha para a Mocinha do Filme*

CÂMERA
(dá um close nas mãos dos dois)

UM CARINHA ATRÁS DE MIM NO CINEMA
*começa a rir*

UM CARINHA DO MEU LADO NO CINEMA
(para mim)
Será que você pode parar de rir? Está atrapalhando.


Cena: Como assim você não conhece bilionários solteiros com menos de 30 anos e eles se apaixonam perdidamente por você depois de 10 minutos?

PAR ROMÂNTICO
Oi, Mocinha. Eu descobri onde você trabalha de algum jeito e vim aqui comprar “materiais” super inocentes, como cordas e cabos. Me ajuda?

MOCINHA DO FILME
Claro.

O MONSTRO DO LAGO NESS
Eu sou mais real que a química entre vocês.

CARINHA GATO QUE TRABALHA NA LOJA E NUNCA MAIS APARECE E É MUITO MAIS BONITO DO QUE O PAR ROMÂNTICO
Oi!


Cena: nada continua acontecendo, mas dessa vez é outro dia e eles estão tomando café

PAR ROMÂNTICO
Eu não tenho costume de namorar e ter relacionamentos.

MOCINHA DO FILME
...

PAR ROMÂNTICO
Eu não sou bom para você.

MOCINHA DO FILME
...

PAR ROMÂNTICO
Acho que vou ter que deixar você ir.

MOCINHA DO FILME
Pera, me corrija se eu estiver errada, mas eu estava super de boa vivendo e você que veio atrás de mim?

PAR ROMÂNTICO
O nosso amor não é para ser!!


Cena: Mocinha do Filme fica bêbada, Par Romântico é um stalker.

MOCINHA DO FILME
E eu me formei em Literatura Inglesa! Um brinde ao desemprego!
(toma um shot, fica bêbada, liga pro Par Romântico)
Oi, Par Romântico. Eu estou te ligando para dizer que não posso aceitar o presente caro que você me mandou e...

PAR ROMÂNTICO
Para tudo, você está bêbada?

MOCINHA DO FILME
Hm... estou, claro.

PAR ROMÂNTICO
Como você se atrave a beber? COMO? Isso é um absurdo, mulher. Fica aê que eu vou te buscar.

MOCINHA DO FILME
Mas você nem sabe onde eu estou.

PAR ROMÂNTICO
Não preciso de coisas mundanas como informações. Eu sou Jesus.

(De alguma forma, Par Romântico chega no barzinho e salva a Mocinha de receber um beijo de seu Amigo Latino!)

PAR ROMÂNTICO
Vou te levar para o meu hotel, onde vou tirar a sua roupa com você desacordada e te colocar na minha cama.

ROMANCE
E ainda dizem que eu morri.


Cena: e cadê sexo? E cadê história? E cadê qualquer coisa pra me tirar esse sono?

PAR ROMÂNTICO
Assim, quero te pegar, mas você precisa assinar um contrato comigo primeiro.

MOCINHA DO FILME
Oi?

PAR ROMÂNTICO
Mas antes, deixa eu te distrair com como eu sou rico!
(Mocinha e Par Romântico sobrevoam Seattle em um helicóptero, em uma cena que dura pelo menos o dobro do que deveria)

PAR ROMÂNTICO
Preciso que assine um contrato de não divulgação. Meu advogado insiste. Não pode contar nada sobre mim para ninguém e talz.

MOCINHA DO FILME
Isso quer dizer que não posso dar detalhes ou que não posso marcar você nas minhas fotos do facebook?

PAR ROMÂNTICO
Só assina.

MOCINHA DO FILME
*assina o documento, sem ler*

MILHARES DE ADVOGADOS EM TODO O MUNDO
Idiota.

PAR ROMÂNTICO
Então, seguinte: curto sadomasoquismo. Aqui é o meu quarto especial.

PESSOA RESPONSÁVEL PELA DECORAÇÃO DO QUARTO ESPECIAL
Veja como escolhi couro e tons de vermelho, pq sutileza não é o forte deste filme.

PAR ROMÂNTICO
Quero fazer altas coisas com você. E quero que você se submeta a mim.

MOCINHA DO FILME
Você quer me bater e me pendurar do teto? E o que eu ganho com isso?

PAR ROMÂNTICO
Você me ganha.

MOCINHA DO FILME
Uau.


Cena: sexo #1

E eles transam.
E é a coisa mais monótona do universo.

PAR ROMÂNTICO
*respira perto da barriga da Mocinha*

MOCINHA DO FILME
*geme*

PAR ROMÂNTICO
*é um deus do sexo?*


Cena: meia hora de putaria para ver se ela vai assinar o contrato de submissa ou nem.
Me pergunto se é possível processar por este contrato ou se a contrato de não divulgação não permite essas coisas.

CONTRATO DE SEXO
Se aceitar a posição de submissa do Sr. Par Romântico, a Mocinha do Filme terá que:
- ir num ginecologista à escolha do Par Romântico
- comer direito, de uma lista de comidas anexa
- fazer exercícios
- não beber, fumar ou usar drogas

MOCINHA DO FILME
Estou completamente de boa quanto a como isso é controlador e abusivo, a única coisa que me preocupa é: por que não podemos dormir na mesma cama?

PAR ROMÂNTICO
Já disse mil vezes, não sou assim.
Mesmo que tenha dormido na sua cama mais de uma vez. Só não sou assim, ok?
Vai assinar logo essa porra de contrato?

MOCINHA DO FILME
Hm... não sei.


Cena: a mesma discussão de “eu quero mais do que isso” vs. “essa é a minha natureza” acontecem ad nauseam por mais uns vinte minutos.

MINHA PACIÊNCIA
Tão inexistente quanto a química do casal.

MOCINHA DO FILME
Tem alguns pontos do contrato que gostaria de renegociar. Como, por exemplo, o que é um plug anal?

GOOGLE
Eu existo nesse universo, né?

PAR ROMÂNTICO
Como curto muito você, que tal se adicionar uma cláusula dizendo que uma vez por semana a gente faz alguma coisa, tipo um encontro?

MULHERES NO MEU CINEMA
(de verdade)
Awwwn!

MOCINHA DO FILME
#fechoubalada


Cena: sexo sadomasô

EDITOR Nº1 DESSA CENA
Aposto 10 reais que consigo transformar essa cena na coisa mais sem graça do mundo.

EDITOR Nº2 DESSA CENA
Apostado.

EDITOR Nº1 DESSA CENA
10 reais mais fáceis que já ganhei na vida.


O resto do filme é basicamente Mocinha querendo mais, Par Romântico dizendo que nem pode fazer mais mesmo quando ele obviamente já fez as coisas que diz não fazer, e bem de vez em quando (e bota de vez em quando nisso), eles transam. E é bem isso.


Cena: a Mocinha trabalha? Não que tenha qualquer coisa a ver com a paçoca, mas o filme está tão chato mesmo que a especulação é mais interessante.

MOCINHA DO FILME
*toma um segundo drink*

PAR ROMÂNTICO
(que seguiu a mocinha até a casa da mãe dela, em outro estado, pq ele é incapaz de deixar a Mocinha ter uma vida sem ele colado)
Outro drink? Mulher, pelo amor.

AVRIL LAVIGNE
She was a girl, he was a creepy controlling stalker, can I make it any more obvious?

MOCINHA DO FILME
A gente faz alguma coisa além de sexo ao som de Beyoncé com edição zoada? A gente conversa ou algo do tipo?

PAR ROMÂNTICO
Pra que preciso conversar com você quando sou rico?


Cena: ZzzzZZZzzzzzZZZZZzzz

MOCINHA DO FILME
Você quer bater em mim, né? Ok, me “punir”, se quiser brincar de mudar o termo, mas mesma coisa.

PAR ROMÂNTICO
É, quero.

MOCINHA DO FILME
Mas pq? Pq você é uma pessoa assim?

PAR ROMÂNTICO
Pq a minha mãe era viciada em crack e morreu quando eu tinha 4 anos?

MOCINHA DO FILME
Claro, parece lógico. Ok, quero ver qualé. Bora lá, pode me punir.

PAR ROMÂNTICO
(dá seis chicotadas na Mocinha. Sim, parece doer. Não, não é sexy.)

MOCINHA DO FILME
(finalmente)
Ai meu Deus, não coloca a mão em mim, você é doente! Nunca mais faça isso.

PAR ROMÂNTICO
Mas...

MOCINHA DO FILME
(usando uma camiseta Eu preciso de mais)
Eu me apaixonei por você!

PAR ROMÂNTICO
Não! Ninguém pode gostar de mim! Eu sou um monstro...

MOCINHA DO FILME
(vai embora)

FILME
(acaba)

CARA ATRÁS DE MIM NO CINEMA
Acabou? É isso?

FIM