Porque se o José Wilker pode, eu também posso.

domingo, 4 de março de 2018

Oscar 2018


Mais um ano que começa, mas uma premiação do Oscar com piadinhas forçadas, baixa audiência e desinteresse geral da nação. Ah, tradições!
Falando em tradições, mais uma vez temos uma lista de indicações completamente bege. Se você for realmente me falar que esses filmes são os nove melhores exemplos de produções cinematográficas produzidas nos EUA durante o ano de 2017 todo, não é de se espantar que Hollywood tá ganhando cada vez menos dinheiro. Dessa lista, apenas dois são realmente bons, e gostei de três. Um terço. O resto? Várias horas da minha vida que não voltam mais.

Mas, assim como aqueles casais de namorados que estão juntos faz 10 anos, não têm mais assunto e ainda assim continuam saindo pra comer lanche de sábado a noite só porque faziam isso no começo de namoro, eu também continuo com esse blog e meu post anual sobre o Oscar – rotina manda beijos.

Me chame pelo seu nome


(Call me by your name. Luca Guadagnino, 2017)

A primeira e única coisa que sabia sobre esse filme, muito antes de ele ser indicado ou de ter parado para assisti-lo, é que tratava de um romance homossexual entre dois homens. Agora, um dos problemas que sempre ocorrem quando você tem um filme com um tema “polêmico” (racismo, homossexualidade, machismo) é que muitas vezes o pessoal desculpa muito das faltas do filme só pq ele trata sobre um assunto culturalmente relevante. Na maioria das vezes que vejo um filme indicado ao Oscar desse naipe, ele é... ok. Nada demais, ou de menos. Vocês lembram de Brokeback Mountain, né? Quer filme mais superestimado do universo do que esse, mas como tinha um casal gay, todos pirou na época? Então cheguei com um certo pé atrás antes de assistir, confesso, insegura de se estávamos falando de um bom filme que lida com homossexualidade ou apenas de um filme com gays no pôster.
Estamos falando de um bom filme que lida com homossexualidade, graças.
Contando a história de um romance de verão entre Elio (Timothée Chalamet) e Oliver (Armie Hammer), o filme cria uma colagem de momentos comuns da vida, cada peça, por menos que pareça, criando a composição final de como alguns meses podem alterar toda uma vida. Estamos falando aqui de um filme sem muita história além do romance básico, com um diretor europeu que claramente segue a escola Europeia Tradicional De Se Fazer Filmes (planos abertos, cenas estáticas mantidas por vários segundos, silêncio, trilha sonora instrumental) e atuações excelentes, especialmente do Timothée Chalamet, que mal conheço mas já considero pacas.
O resultado é um filme singelo e honesto sobre o amor, lindamente filmado e com ótima cinematografia. Sem dar spoilers, mas é digno de nota que a cena final desse filme (se você assistiu, sabe do que estou falando) é uma das melhores decisões autorais de um diretor que vi nos últimos tempos, e tudo nela é perfeito: iluminação, composição, música, e principalmente atuação.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator (Timothée Chalamet); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Canção Original
Vai levar: Imagino que nada, além de um aumento de vendas do dvd por poder colocar “4 indicações ao Oscar!” na capa.


O destino de uma nação




(Darkest Hour. Joe Wrigh, 2017)

Olha só, fizeram um filme sobre Churchill. Alguém estava querendo um filme sobre ele? Se você é uma das 15 pessoas no mundo que estavam morrendo pra ver uma produção em grande escala sobre esse líder político inglês na segunda guerra mundial, esse é o seu momento. Se é uma pessoa normal como o resto de nós... é apenas mais um filme de guerra.
Quem me conhece sabe que não suporto filme de guerra – de um ponto de vista puramente pessoal, claro, mas pra mim são todos iguais, e a mensagem é sempre a mesma: guerra é ruim, a humanidade é um monstro, precisamos ser melhores no futuro.
Todos sabem, amigo, sempre souberam e isso nunca impediu a humanidade de continuar fazendo guerra e sendo um monstro.
Um filme de guerra costuma ter duas embalagens tradicionais: aquele que ocorre no meio da batalha (com tiros e sangues e soldados gritando e provavelmente pelo menos uma cena em câmera lenta) e aquele que ocorre nos bastidores e conta a política por trás da barbárie. O destino de uma nação é o segundo caso – Churchill (Gary Oldman, que deve levar o Oscar porque a Academia pira em transformação corporal) assume como primeiro ministro na Inglaterra qdo a Europa está a beira da guerra, e precisa decidir se vai lutar contra Hitler ou tentar um acordo, “salvar” o Reino Unido e
Se você terminou o colegial, sabe a decisão que ele tomou.
Se você já viu qualquer filme na vida, sabe muito bem como esse será: mais uma multidão que jamais lembrarei em três anos.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator Principal (Gary Oldman); Melhor Direção de Arte; Melhor Cinematografia; Melhor Maquiagem; Melhor Figurino
Deve levar: Gary Oldman deve levar melhor ator, ficaria muito surpresa se não fosse o caso. Sou bem ruim em prever qualquer coisa técnica (até porque, em geral, nunca vejo todos os filmes indicados para todas as categorias, então muitos deles eu não assisti), mas Melhor Maquiagem não seria nem um pouco chocante.


Dunkirk



(Dunkirk. Christopher Nolan, 2017)

Mais um filme de guerra, yay – só que dessa vez do segundo tipo, pra você ver de perto a dor que é morrer pelo seu país.
Baseado em fatos reais, o filme conta a história dos soldados que ficaram presos na praia de Dunkirk, esperando a evacuação (caso ela viesse) e sendo mortos por artilharia alemã durante o processo. Não é exatamente um filme ruim, e tenho vários pontos a elogiar aqui (especificamente cinematografia, que é absurda de linda, e edição), mas tem um grande problema incontornável: o filme nunca cala a boca.
Durante mais de 2 horas fui obrigada a ouvir um som ao fundo de todas as cenas, que variava de intensidade e de estilo, mas estava sempre ali: possivelmente pra destacar o quanto a situação é hostil e tensa, mas na realidade me dando nos nervos como nunca antes. Sei que deu certo em Inception, amigo, mas deu porque rolou de vez em quando. Em todas as cenas? É forçar demais. O fato de que esse filme tá indicado pra melhor edição e mixagem de som me faz pensar que todos na Academia precisam de um abraço.
 Nolan é um dos meus roteiristas favoritos (e um diretor ok, a meu ver, nunca achei nada demais ou menos) quando ele cria um roteiro original. Nesse caso, nesse filme? Podia ser de qualquer outra pessoa – se me falasse que o JJ Abrams dirigiu, eu acreditava, de tão genérico.
É ruim? Não. É bom? Também não. É bem filmado e não ofensivo e relativamente entretentente, então se estiver sem nada para fazer num domingo a tarde... eu ainda tiraria uma soneca, mas se estiver sem sono, esse filme pode até valer a pena – mas não garanto nada.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor (Christopher Nolan); Melhor Cinematografia; Melhor Edição; Melhor Trilha Original; Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som; Melhor Direção de Arte
Dele levar: Só pra rir da minha cara, é capaz dessa moléstia levar Melhor Edição e Mixagem de Som, pq o universo não está de brincadeira. Se não fosse porque A forma da água existe, apostaria nele para Melhor Cinematografia e Direção de Arte – ele ainda pode levar, ao menos um dos dois, mas o outro é melhor. Melhor Edição deve ser dele.


Corra



(Get out. Jordan Peele, 2017)

O meu filme favorito dessa lista, de longe, e também o único que já tinha assistido antes das indicações sairem (ou seja, vi por livre e espontânea vontade, e não só pq sim). Um dos dois filmes nessa lista (o outro é A forma da água) que considero filmes verdadeiramente bons, em todos os pontos de vista: desde técnicos até roteiro e atuação e música e... e...
Por que quem consegue transformar o que poderia ser mais um filme de terror clichê em um comentário extremamente bem estruturado sobre o racismo nos Estados Unidos, com uma atuação deslumbrante do Daniel Kaluuya (minha escolha pra melhor ator, embora saiba que não vai ganhar) e uma direção magistral que me deixou chocada a cada segundo sobre como é brilhante? Sério, tudo nesse filme é incrível, e de um ponto de vista puramente técnico, é possível fazer uma tese de mestrado somente sobre as escolhas de ângulo de câmeras nas cenas. Se você pode ver apenas um dessa lista, assista Corra e mergulhe nessa genialidade – isso não acontece sempre.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor (Jordan Peele); Melhor Ator (Daniel Kaluuya); Melhor Roteiro Original
Merecia levar: Se esse filme não levar Melhor Roteiro Original eu juro por todos os deuses que vou dar um jeito de aparecer em LA e quebrar tudo naquele teatro – sei que A forma da água também é incrível, mas já vai levar Melhor Filme/Diretor. Deixa meu Melhor Roteiro Original pra Corra, por favor.


  

Lady Bird: é hora de voar
 (Lady Bird. Greta Gerwig, 2017)

Então, esse filme... existe.
Contando a história de uma adolescente chamada Christine, mas que insiste em ser chamada de “Lady Bird” (Saoirse Ronan) e suas aventuras em clima de muita azaração com uma galerinha da pesada (além da relação conturbada com a mãe), esse é um filme bem sólido sobre uma pessoa se encontrando na vida adulta. E apenas isso.
Do jeito que ouvi falar antes de assistir, era para se esperar que Jesus tivesse voltado à terra – mas não, não tem seriamente nada demais (ou de menos, é só genérico) nesse filme.
O fato de que foi indicado pra melhor filme quando o infinitamente superior Eu, Tonya não foi é bizarro pra mim. O fato de que foi indicado pra melhor direção é ainda pior pq a direção desse filme só não é mais previsível e sem graça porque ele não é maior.
Juro que não sei nem o que escrever sobre esse filme, ele é tão... normal. Divide em 5 partes e dubla e rola passar na sessão da tarde, depois de vale a pena ver de novo.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção (Greta Gerwig); Melhor Atriz (Saoirse Ronan); Melhor Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf); Melhor Roteiro Original
Deve levar: Eu diria que nada. Tem gente apostando na Saoirse pra Melhor Atriz Principal, e ok, ela faz um bom trabalho – mas tem gente melhor. Espero que nem se atrevam a dar Melhor Roteiro Original pra isso e não pra Corra, que vai ter sangue nas ruas se esse for o caso.


Trama Fantasma



(Phanton Thread. Paul Thomas Anderson, 2017)

Ai, esse filme. Esse filme, meu senhor.
2h20 de pura sofrência e ódio no sofá da minha sala, questionando seriamente que tipo de vida estou vivendo, que me forço a fazer essas coisas todos os anos.
A história é a seguinte: um costureiro solteirão Reynolds (Daniel Day-Lewis) se apaixona por uma garçonete desastrada Alma (Vicky Krieps) e ela acaba se tornando sua musa durante um relacionamento conturbado e emocionalmente abusivo.
Tenho uma série de problemas reais com esse filme. Os principais são: o diretor (Paul Thomas Anderson) queria muito fazer um filme europeu – exceto que ele não é europeu, e emular a escola Europeia Tradicional De Se Fazer Filmes não é pra qualquer um. Tudo o que eu senti foi como a pessoa estava querendo muito ser mais profundo e artístico do que provavelmente é; estamos falando de um universo em que todas as mulheres ricas se sentem feias até serem validadas pela roupa do estilista que é um filha da puta – pq nada como a aprovação masculina pra animar o seu dia. Duvido que preciso explicar o quanto isso é problemático, e o filme não toca de verdade nesse ponto (nem para aprovar ou desaprovar) e tenho minhas dúvidas se tal ponto foi sequer considerado; o personagem do Daniel Day-Lewis é o único homem do filme inteiro (um médico aparece no final e fala por 3 segundos) e os flashbacks de anime de harém foram reais aqui; e finalmente o roteiro é tão “fake deep” que o nome da personagem principal é ALMA e ela dá um novo sentido a vida do cara.
De um ponto de vista técnico, sim, admito que é um bom filme. Mas odiei, e não recomendo para ninguém. Me deixou desconfortável durante todo o processo, e a melhor coisa pra mim, que foi a atuação da personagem principal, não recebeu indicação. Logo...

Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator (Daniel Day-Lewis); Melhor Atriz Coadjuvante (Lesley Manville); Melhor Trilha Sonora; Melhor Figurino
Deve levar: Melhor Figurino é sempre possível quando temos um filme sobre roupas, e o Daniel Day-Lewis está ótimo nesse papel (mas o Sirius Black tá gordo pro Churchill, então não tem competição real), mas seriamente espero que não leve nada. E que apague minha memória também.
Merecia levar: um tapa na cara, pra largar de ser besta


The Post: a guerra secreta



(The Post. Steven Spielberg, 2017)

Ok, é um filme: baseado em fatos reais, sobre a liberdade de imprensa na América do Trump, com a Meryl fucking Streep e o Tom fucking Hanks e dirigido pelo Steven Spielberg e existe uma chance de isso ser mais oscar bait do que já é no momento?
O santo graal dos filmes criados especificamente para o Oscar, The Post é exatamente aquilo que você está esperando que seja, nada mais, nada menos. Meryl Streep é fisicamente incapaz de ser algo além de maravilhosa, e o Tom Hanks é o Tom Hanks. A história sobre como um jornal enfrenta tudo e todos para manter seu direito de contar a verdade sobre o governo é só de leve relevante num país em que o presidente disse mais “fake news” do que o nome da esposa no último ano. Mas, deixando tudo isso de lado, é um bom filme? Não. É um filme ruim? Não. É um filme do qual me lembrarei em 3 meses? Não. É entretente e uma boa opção para uma noite chuvosa? Sim. Espera entrar no Netflix, pq pagar pra ver no cinema é um pouco demais.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Atriz (Meryl Streep)
Deve levar: um grande sorriso no rosto e pelo menos duas piadas a custas do Trump durante a apresentação do Oscar



A forma da água



(The shape of water. Guillermo del Toro, 2017)

Antes de saber qualquer coisa sobre esse filme, antes de ver o nome ou o conceito de arte ou mesmo quem dirigia, a internet me informou que ia rolar um filme em que “a mina pega um monstro-peixe”. O que, tecnicamente, é verdade: mas é tão mais que isso.
Só tinha ouvido boas coisas sobre esse filme e foi o último que assisti de verdade. É sempre um perigo assistir qualquer coisa com expectativas altas, já que isso pode influenciar e muito sua opinião. Mas A forma da água não teve esse problema: esse filme é lindo. Ridiculamente lindo. Ofensivamente lindo. A cinematografia, a edição, a direção de arte... fiquei triste de não ter visto no cinema, pq presenciar esse mundo na tela grande deve ser algo maravilhoso.
Quem diria que um filme romântico de ficção científica seria um dos melhores filmes que vi nos últimos anos? A escolha de arte de criar um universo Bioshock lúdico foi inspirada e respeitei todas as decisões de direção e arte de uma forma que não me via fazendo há muito tempo. A história em si é simples: uma faxineira muda chamada Elisa (Sally Hawkins) trabalha em um laboratório no qual o governo encontrou uma criatura-peixe. O encontro de Elisa e da criatura muda a vida dos dois. Eu sei o quanto isso parece absurdo, mas dê uma chance pra esse filme: finalmente alguma coisa que podemos realmente chamar de sétima arte.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor (Guillermo del Toro); Melhor Atriz (Sally Hawkins); Melhor Ator Coadjuvante (Richard Jenkins); Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer); Melhor Roteiro Original; Melhor Cinematografia; Melhor Figurino; Melhor Edição; Melhor Trilha Original; Melhor Direção de Arte; Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som
Merecia levar: honestamente? Quero que leve todos os técnicos. Só põe na conta, nem me importo: Melhor Cinematografia; Melhor Figurino; Melhor Edição; Melhor Trilha Original; Melhor Direção de Arte; Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som
Deve levar: Melhor Diretor vai levar com toda certeza. Melhor Filme é uma possibilidade real, mas faz um tempo desde que não tivemos o mesmo filme ganhando esses dois prêmios, o que me faz pensar que a Academia gosta de causar e não de votar pra mesma pessoa.


Três anúncios para um crime


(Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. Martin McDonagh, 2018)

Todo ano temos aquele filme. Sabe, aquele – aquele que ninguém nunca ouviu falar e todos fazem cara de surpresa porque “oi, como chama isso mesmo? Com quem é?”. Mas, como tem acontecido nos últimos anos, o filme hipster da lista acaba sendo um dos meus favoritos: tenho que aceitar que sou esse tipo de pessoa agora.
Um roteiro original interessante, cheio de reviravoltas, sobre uma mãe (Frances McDormand) que fica exausta com a falta de solução pro crime da filha, aluga 3 billboards na cidade pra pedir satisfação pro delegado – que está morrendo de câncer. Humor negro, ótimas atuações, diálogos bem escritos e um final satisfatório: o que mais você pode querer de um filme hipster do Oscar?

Indicações: Melhor Atriz (Frances McDormand); Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (Woody Harrelson e Sam Rockwell); Melhor Roteiro Original; Melhor Edição; Melhor Trilha Original
Deve levar: de verdade, gostaria que levasse Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante (Sam Rockwell tá incrível), mas não ficaria chocada se não levasse nada.





domingo, 26 de fevereiro de 2017

Oscar 2017

Mais um ano que passa, mais um Oscar que chega, mais uma vez ninguém se importa. Nada como o niilismo da existência diária revertido em meu post anual no blog.

OK, Oscar 2017. Basicamente:
Sabe aquela sua tia que faz um café super fraco, e com muito açúcar, mas que toda vez que você vai na casa dela você toma então se acostumou mesmo e nem repara mais? Sou eu, com o Oscar. Tá uma merda, como foi ano passado e como foi antes disso. De uma lista de nove, você não consegue três que são realmente exemplos máximo da arte do cinema americano. Mas ainda me dou ao trabalho de baixar e assistir todos na lista. Por quê? Ninguém sabe.

Esse ano, temos apenas nove indicações, já que a Pixar não fez a parte dela de lançar um filme incrível pra esse período. A Academia pode indicar dez filmes, e juro por Deus que toda vez me lembro daquela cena clássica de Jurassic Park: só porque você pode, não quer dizer que deve. Puta que me pariu, sei que é possível indicar dez filmes e que colocar “Indicado a Melhor Filme” na capa do DVD ajuda a vender, mas por favor. É super possível fazer um TBT e indicar cinco apenas. Ou seis. Não precisa só porque pode. O melhor que tenho a dizer sobre esses filmes é que quase todo têm ou menos de 2h ou só um pouquinho a mais, então se decidir assistir... não vai perder tanto tempo da sua vida assim?




A chegada

(Arrival. Denia Villeneuve, 2016)

            Antes de ver esse filme, tudo o que sabia sobre ele era que existiam aliens e uma linguista estava tentando traduzir o que os aliens falavam. Em nenhum momento imaginei que se tratava de um filme “sério” – vamos combinar que se você coloca a Megan Fox de óculos (pra mostrar como ela é esperta!) e várias explosões, isso bem que podia ser a premissa básica de um filme do Michael Bay. Mas não, é um filme dramático com aliens. Alguma parte do meu subconsciente que um dia viu Marte Ataca!  é incapaz de aceitar esse tipo de combinação e o estranhamento nunca mais foi embora.
            Tenho vários problemas com esse filme: o pacing é muito devagar (35 minutos pra eu ver a porra do alien que sei que existe porque aparece no trailer e é premissa básica da narrativa, pelo amor); ele se leva a sério demais, o que me deu um destoante absurdo porque são aliens que parecem as Ultrabeasts do último jogo de Pokémon; a teoria linguística que precisa ser aceita para que o “plot twist” faça sentido é ridícula pra mim; é impossível não pensar em “Interestelar com linguística” no final.
            Mas gosto de várias outras coisas: Amy Adams é uma ótima atriz; o processo de comunicação/tradução com os aliens é interessante para mim, como linguista que sou; a edição (de imagem e de som) está incrível.
            Agora, o que esse filme está fazendo aqui, numa lista de indicados ao Oscar pra Melhor Filme? Não faço a menor ideia, imagino que alguém é muito bom de cama e esteve muito ocupado fazendo lobby individual. Todos os prêmios técnicos são válidos, mas... sério. Aliens. Sou incapaz.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som; Melhor Cinematografia; Melhor Edição; Melhor Direção de Arte.
Deve levar: Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som são possibilidades, mas LA La Land está aí para acabar com essa alegria. Melhor Edição é discutível, mas se levasse não ficaria chocada. Mas, novamente, La La Land.



Um Limite Entre Nós

(Fences. Denzel Washington, 2016)
           
            O filme começa com o Denzel Washington, senhor da porra toda, fazendo praticamente um monólogo de 15 minutos. Foi nessa hora que pausei minha reprodução patrocinada pelo PirateBay e fui confirmar o que já suspeitava: é baseado em uma peça de teatro.
            Filmes baseados em peças de teatro são, em geral, uma coisa a parte. Pesados em diálogo, leves em tudo o mais. Esse filme não é uma exceção: é uma excelente peça filmada, mas não é um filme. A adaptação é quase inexistente, o que leva a um produto engessado, que não aproveita as várias possibilidades que o cinema permite explorar, inexistentes no palco de um teatro.
            Isso quer dizer que é ruim? Não quando o diálogo é incrível e você tem Denzel Washington (que deveria sim levar melhor ator, que se foda o irmão do Ben Affleck) e a Viola Davis diva suprema (que vai levar melhor atriz coadjuvante) mandando na tela. Mas, de um ponto de vista cinematográfico, é altamente pobre: não espere edições inteligentes, e ângulos de câmeras significativos ou paralelos visuais. É uma peça de teatro com trilha sonora. O que é muito bom e talz se você quer ver uma peça de teatro com trilha sonora, mas quando estou falando da linguagem do cinema, quero bem mais que isso. E o fato de este filme estar indicado pra Melhor Roteiro Adaptado é uma piada absurda. 

Indicações: Melhor Film; Melhor Ator Principal (Denzel Washington); Melhor Atriz Coadjuvante (Viola Davis); Melhor Roteiro Adaptado
Deve levar: Melhor Atriz Coadjuvante. Esse é o ano da Viola e ninguém pega esse prêmio das mãos dela. Denzel é a minha escolha pessoal pra Melhor Ator, mas ele sofre do mesmo mal que o Leonardo diCaprio e o Tom Hanks: eles são normalmente muito bons e as pessoas preferem premiar alguém que “surpreendeu” com o talento do que alguém que “está sempre bom porque é foda”.



Até o Último Homem

(Hacksaw Ridge. Mel Gibson, 2016)

            Todo Oscar tem um desses. Um desses filmes americanos da porra que sou obrigada a assistir porque está nessa lista, mas que nunca em um milhão de anos me daria ao trabalho. Esse ano, a honra vai pra um filme dirigido pelo Mel Gibson, também conhecido como o Babaca Antissemita e Racista Que Foi Famoso Um Dia.
            Esse filme foi um exercício pra minha paciência. E só não foi pior porque realmente gosto do Andy Garfield (indicado a Melhor Ator Principal, que não vai levar), mas mesmo assim. O filme começa com uma cena de guerra em câmera lenta com narração em voice-over e pula pra um flashback no qual o pai violento quebra a mão e sangra em cima de um túmulo (sutileza! simbolismo!)... e é tão clichê e tão descarado e tão desnecessário e tão forçado que nem sei o que dizer.
            O filme conta a história de um médico americano que se recusava a pegar em armas por motivos religiosos, e que salvou uma galera na Segunda Guerra. A história em si não é o problema, o problema é o sr. Mel Gibson, que no passado conquistou fama por fazer um filme de torture porn com Jesus Cristo e continua tentando muito chocar a audiência com explosões e sangues, como se isso fosse possível depois que milhões de Jogos Mortais. A terceira parte do filme envolve tranquilamente 15 minutos de pura violência e gritos e olhos explodindo e cérebro voando e ai meu Deus como a guerra é violenta, não é mesmo? Não recomendo, não vale a pena, o Mel Gibson ainda é um babaca, foram 2 horas da minha vida que nunca mais voltarão.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Ator (Andrew Garfield); Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som
Deve levar: Se há um Deus misericordioso, nada. Porque se essa merda de filme levar Melhor Direção, desisto da vida.


A Qualquer Custo

(Hell and High Water. David Mackenzie, 2016)

            Todo Oscar também tem um desses também – aquele filme do qual você nunca ouviu falar. Aquele que provavelmente seria o favorito do Zé Wilker por ser o mais hipster da lista. A honra de ocupar o posto de Indicação Hipster Que Ninguém Lembrará Ano Que Vem vai para A Qualquer Custo, a história de dois irmãos que começam a roubar bancos e do policial que cuida do caso (e está prestes a se aposentar, olha só!)
            A melhor coisa dessa filme é sua trilha sonora, ótima seleção musical, Tarantino se orgulharia. A segunda melhor coisa é que só tem 1h40min. Não tenho uma terceira coisa pra elogiar. Não é um filme ruim, em sim, é só um filme incrivelmente esquecível. Ele é tão bege que a Meg Ryan está julgando.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (Jeff Bridges); Melhor Roteiro Original; Melhor Edição
Deve levar: O Jeff Bridges ganhar é possível, e não seria um absurdo nem nada. Melhor Roteiro Original deve ficar com La La Land mesmo.
           

Estrelas Além do Tempo

(Hidden Figures. Theodore Melfi, 2016)

           Estrelas Além do Tempo é um filme que resume um dos meus maiores problemas com a indústria no momento: filmes construídos para momentos e não para coesão e história. Sabe quando está assistindo filme, e existe uma cena/fala que você pensa na hora “nossa, certeza que isso está no trailer”? Exatamente.
O filme é uma série de cenas que você pode adicionar um “uhhhhu snap” no fundo, interligada de forma a criar um filme, mas falta alguma coisa pra que a história flua de um modo orgânico. Narrando uma versão incrivelmente romantizada da história real de três mulheres negras que conquistaram seu espaço no mundo da NASA, esse é um filme entretente com um ótimo elenco, mas que é basicamente uma versão ligue-os-pontos de todos os filmes inspiradores de história real que você já viu na vida.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
Deve levar: Um grande sorriso e uma camiseta “Fui No Oscar e Lembrei de Você”




La La Land: Cantando Estações


(La La Land. Damien Chazelle, 2016)
           
            Estava exausta desse filme antes mesmo de ver o trailer. Aí vi o trailer e minha exaustão só subiu. Curto a Emma Stone, não tenho nada contra o Ryan Gosling e amo musicais, então você imaginaria que ia curtir esse filme, certo? Errado. Por alguns motivos: não aguento mais casal hétero e cis se apaixonando; não aguento mais filme romântico em que conflito ocorre por falta de comunicação (conversem com seus namorados, amiguinhos, dica); não aguento mais ver a mesma história. Sei muito bem que o ponto de La La Land é capitalizar na nostalgia, mas, olha em volta. Não precisa ficar nostálgico, a gente está engolindo essa mesma história faz anos, a única diferença é que a galera manda whats pro crush e não carta pra futura esposa.
            Agora, eu seria capaz de perdoar muita coisa, mas muita coisa, mas não capaz de perdoar um simples fato: você fez um musical com atores que não sabem cantar. Ponto final, fim de conversa, valeu a participação, boa sorte na vida. Ninguém canta nada. Como é possível que o mundo caiu de pau em cima do Russell Crowe por Le Miserable e não vi ninguém falando nada da Emma Stone?? Me senti pessoalmente atacada pela incapacidade vocal demonstrada no dueto dos dois. E, sem brincadeira, esse filme não tem nada a ganhar por ser um musical: as músicas são monótonas, cantadas por quem não sabe cantar e servem apenas pra me tirar do filme e me fazer pensar “caralho, ninguém nem fez aula de canto?” Ele seria tão melhor se fosse apenas um filme com bastante música instrumental, sabe.
            E sei que reclamei por dois parágrafos, mas na verdade não odiei La La Land. O terço final do filme (quando eles param de tentar forçar o canto, olha só) é realmente bom, a edição desse filme é incrível, a visão e o design necessário para criar esse universo é louvável. Mas  a hype toda desse filme não é merecida, ele é entretente e bonitinho, acabou. Galera do elenco que não para de falar que o filme foi um “risco” precisa procurar a palavra no dicionário – que não tem um filme mais calcado no “seguro” com um toque gourmet de musical do que esse.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Ator Principal (Ryan Gosling); Melhor Atriz Principal (Emma Stone); Melhor Roteiro Original; Melhor Trilha Sonora; Melhor Canção; Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som; Melhor Direção de Arte; Melhor Cinematografia; Melhor Figurino; Melhor Edição.
Deve levar: Possivelmente, todos ou uma boa parte dos técnicos, com destaque especial para Edição de Som, Mixagem de Som e Direção de Arte. Esse é um dos cotados para ganhar Melhor Filme e juro por tudo o que é mais sagrado que não existe UM universo em que La La Land é um filme melhor do que Moonlight. Claramente Oscar nunca foi um poço de coerência, então veremos o nível da putaria. Emma Stone é forte candidata também, e esse seria um prêmio merecido caso realmente acontecesse.
           


Lion: Uma Jornada para Casa

(Lion. Garth Davis, 2016)

            Esse foi o filme que me fez parar, respirar fundo e pensar “ok, agora sim Oscar”. Estou apaixonada por ele de todas as formas que você consegue pensar: atuação, edição, fotografia, trilha sonora, roteiro... ele é incrível, muito incrível... e não vai levar absolutamente nada nesse Oscar (yay!).
            Lion conta a história de um garotinho indiano que se perde da família e é adotado por uma família australiana. Ele trata temas complexos e duros sem usar narração voice-over em nenhum momento, confiando que você é capaz de entender o que está acontecendo pela belíssima composição de imagens e som. Se tem um filme dessa lista que recomendo de verdade que você assista, esse filme é Lion. Ele acerta em todos os quesitos de um jeito raramente encontrado, é um exemplo do que a arte visual do cinema pode fazer e de como é possível construir uma narrativa não somente baseada em diálogo e narração. Lindo e emocionante. Só assiste, vale a pena.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (Dev Patel); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Trilha Sonora; Melhor Cinematografia
Deve levar: Nada, senta e chora o absurdo.
Merecia levar: Melhor Ator Coadjuvante – Dev Patel, além de gato, tem uma plasticidade emocional incrível. Melhor Roteiro Adaptado deve ir pra Moonlight (justo, inclusive), mas sou muito mais Lion para Cinematografia do que La La Land, que deve levar.


Manchester À Beira-Mar

(Manchester by The Sea. Kenneth Lonergan, 2016)

            Sofrência: o filme. Manchester À Beira-Mar conta a história de um homem que perde o irmão e precisa voltar pra sua cidade natal pra cuidar do sobrinho e enfrentar seu passado, dan dan dan! O filme conta com a realmente brilhante atuação do Casey Affleck (irmão do Ben, que já estava pronta para odiar por princípio genético) e da Michelle Williams, que em 4 segundos vem e mostra como ela realmente é boa nesse negócio de atuação, bem como apresenta uma história interessante, desenvolvida com extremo cuidado.
            Não sei muito o que dizer sobre esse filme, na verdade. Ele é um drama pesado com boa atuação e um ótimo final. Ele não chega nem perto de ser o melhor da lista, mas não é o pior também. Duvido que cause muita hype ou que seja lembrado em dois anos. Ele existe. E é válido, mas não é chamativo o suficiente para chamar muita atenção.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Ator (Casey Affleck); Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges); Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Williams); Melhor Roteiro Original
Deve levar: Melhor Ator. Olha, queria muito que fosse o Denzel Washington. Mas deve ser do baby Affleck e vai ser uma escolha justíssima. Em qualquer outro ano, Michelle Williams teria chance real de levar, mas com a Viola Davis arrasando como está? Improvável.



Moonlight: Sob a Luz do Luar

(Moonlight.Barry Jenkins, 2016)
           
            Conversando com um amigo, comentei que só faltava Moonlight na minha lista de filmes de Oscar pra ver, e disse que estava preocupada com a possibilidade de ser muito pesado, já que sabia genericamene do que o filme se tratava (identidade negra, homossexualidade, uso de drogas e relacionamento interpessoal) e que estava com preguiça antes mesmo de começar.
            Adoro estar errada nessas coisas.
            Moonlight é um filme extremamente delicado, composto com maestria e adaptado pro cinema com precisão cirúrgica disfarçada de arte (olha só Um Limite Entre Nós, como é possível adaptar do teatro sem parecer que estamos numa peça, dica) com atuações incríveis e uma das melhores edições dessa lista. Sem a menor brincadeira, Moonlight é o claro vencedor de Melhor Filme desse ano – sim, pessoalmente gostei mais de Lion, mas admito que o melhor filme, cinematograficamente falando, é 100% Moonlight e será praticamente impossível não criar um discurso de racismo na Academia caso La La Land ganhe o prêmio máximo. Pense em Formation da Beyoncé perdendo pra Hello da Adele e vai entender o que estou falando.
            Lindo filme, ótimo filme, que o mundo me dê mais Moonlights e menos La La Lands em 2017.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Ator Coadjuvante (Mahersahala Ali); Melhor Atriz Coadjuvante (Naomie Harries); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Trilha Sonora; Melhor Cinematografia; Melhor Edição
Deve levar: Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado. Embora coloque minha mão no fogo somente pelo último.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Oscar 2016

E mais um ano chega, mais um horário de verão termina, e mais um Oscar é transmitido com tradução simultânea na TNT. Cada vez mais, o Oscar tá ali porque acontece todo ano e ninguém liga muito – é tipo aquele caminho que você faz quando dirige da casa pro trabalho. Liga o piloto automático e só vai. É tipo o “Altas Horas”, programa mais esquecível do mundo que ainda existe na programação da TV. É tipo aquele doce de gelatina que sua tia faz e ninguém gosta muito mas ainda assim tem em todo churrasco de domingo, e como está em cima da mesa mesmo você acaba comendo.

A única diferença deste Oscar para o dos últimos anos foi apenas uma: todos os filmes foram super fáceis de achar no PirateBay. O que já faz dele um Oscar melhor do que o de 2013, por exemplo. 

Sem mais delongas, os indicados a Melhor Filme deste ano na ordem que aparecem no site oficial:

A Grande Aposta

(The Big Short. Adam McKay, 2015)

Aí me chamaram pra ver esse filme no cinema. Sobre o que é, quis saber. “Sobre a quebra do sistema de hipotecas americano”.
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Sem surpresas que não estava exatamente querendo assistir, né?
A Grande Aposta foi uma grata surpresa não só por (a) não ser a coisa mais chata do mundo (é bem entretente, na verdade) e (b) ser capaz de explicar economia ao menos superficialmente para que eu acompanhasse a narrativa, mas por (c) usar o meio cinematográfico para contar uma história.
Isso é algo que vem me incomodando faz um tempo, e só me toquei o quanto no meio da minha maratona Oscar: cada vez menos filmes estão usando as possibilidades visuais e criativas do cinema pra contar uma história. Explico: um filme é um meio visual, diferente de um livro (ou um roteiro) que é um meio escrito. Sim, sei que isso é óbvio e até o Lula admite saber essa diferença, mas por conta disto, um filme deveria ser mais do que apenas um roteiro televisionado. Ele deveria aproveitar a composição de cena, a edição, a trilha sonora, a computação gráfica, o caralho a quatro disponível no meio tridimensional e enriquecer e alterar a maneira como a narrativa é passada.
A Grande Aposta usa e abusa do fato de ser um filme, introduzindo cenas e cortes e edições que um livro não seria capaz de fazer com a mesma eficácia. Isso está cada vez mais raro de tal forma, que seriamente gostaria que levasse o prêmio de melhor filme. No mais, é uma ótima escolha dessa lista e recomendo mesmo se você, como eu, nunca conseguiu entender economia.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Christian Bale), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição
Deve levar: Melhor Roteiro Adaptado, a não ser que perca para O quarto de Jack. Eu gostaria, de verdade, que levasse Melhor Filme, mas esse deve ser O Regresso mesmo. Melhor Edição deve ser dele tb.


Ponte dos Espiões 


(Bridge of Spies. Steven Spielberg, 2015)

                Esse é um filme do Spielberg. Com o Tom Hanks. Sobre um homem de princípios e a guerra fria.
                Podia parar a descrição por aqui, porque você já sabe o resto.
                Tom Hanks segura o filme sozinho só por ser Tom Hanks, interpretando um advogado que defende um espião russo acusado de traição em plena guerra fria nos EUA. O filme é baseado em fatos reais (que é outro problema que eu tenho com a ficção atual, mas posso reclamar disso outra hora) e é beeeem direção e roteiro “siga os pontos” – tudo como deve ser, sem nunca fugir do tradicional e honrando a moral e os bons costumes. É ruim? Não. É bom? Olha, não é ruim.
                Honestamente? Se alguém lembrar desse filme em 5 anos, vou ficar surpresa. Está indicado pra cumprir tabela, e vai ganhar nada além do direito de colocar “Indicado a Melhor Filme” no Oscar na capa do DVD.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coajuvante (Mark Rylance), Melhor Roteiro Original, Melhor Direção de Arte, Melhor Mixagem de Som
Deve levar: Minha aposta? Nada. Sempre existe a chance de Melhor Roteiro Original, mas prefiro ter fé na humanidade e apostar em Straight Outta Compton ou Divertida Mente.

Brooklyn



(Brooklyn. John Crowley, 2015)

                Também conhecido como Sofrência branca: o filme.
                Brooklyn é a história de uma imigrante irlandesa (Saoirse Ronan) que muda pros EUA pra ter uma vida melhor. E é isso. Juro. É isso. O filme se resume em uma frase. E tem mais de duas horas. Sabe o que eu podia ter feito nessas duas horas?? Podia ter reassistido 4 episódios de Parks & Rec. Você me deve 4 episódios, filme.
                Ouvi pessoas amando esse filme. Ouvi pessoas dizendo que a XXX vai levar o Oscar de melhor atriz. E para essas pessoas eu pergunto: quem machucou vocês? Porque considerar as desventuras da Moça Branca (que nem existem, porque ela sai da Irlanda com lugar pra morar e trabalho e acha um macho logo em seguida, então, oi?) enquanto nada acontece na vida normal dela como qualquer coisa além de perda de tempo e energia vai além da minha capacidade de compreensão.
                E não tenho nada contra a Ronan. Acho inclusive que ela fez um trabalho decente considerando a personagem sem personalidade (sei que ela é irlandesa, e que é tímida e... e... e...). Mas o problema dela é a falta de carisma. Como já disse (e repito todos os anos), talento e carismas não necessariamente vão juntos, e você segurar um filme que é basicamente você não é pra qualquer um. Matt Damon consegue em Perdido em Marte. Tom Hanks consegue em Jogo de espiões. James Franco não conseguiu em 127 horas e Saoirse Ronan definitivamente não consegue em Brooklyn.
                E, finalmente, só tenho a dizer que um filme que termina com freeze frame em 2016 não merece o ar que respira.
Indicações: Melhor Filme, Melhotr Atriz Principal (Saoirse Ronan), Melhor Roteiro Adaptado
Deve levar: existe uma chance real de levar Melhor Atriz Principal, mas minha torcida vai pra Brie Larson até o fim (ou pra Cate Diva Blanchett em Carol, que não vi, não particularmente pretendo ver, mas meu amor pela Cate é assim, incondicional).
Merecia levar: um tapa na cara pra ver se encontra Jesus
               

Mad Max: Estrada da Fúria

(Mad Max: Fury Road. George Miller, 2015)

                Quando vi a lista de indicações, dois filmes me surpreenderam. Mad Max foi um deles. A Academia indicar para o prêmio máximo um filme de ação futurista com quase nenhum diálogo e perseguição a cada quatro trocas de cenas? Pouca importa se o filme é válido ou não, só a indicação já abre precendente para um futuro menos esnobe (esperamos).
                Especialmente curto que Mad Max foi indicado e oscar baits óbvios ficaram de fora dessa lista (olhando pra você, Garota dinamarquesa).
                Sobre o filme: gostei. Bem mais do que esperava. O primeiro Mad Max é um dos filmes mais chatos que já vi, em que nada acontece por mais de uma hora (sei porque apostei com o meu irmão quando alguma coisa ia finalmente acontecer no filme. Meu palpite foi 1h15min e eu ganhei) então estava meio cética em relação a este. Mas de similar os dois têm apenas o nome e a ambientação.
                Muito bem editado e atuado (Tom Hardy é meu pastor e nada me faltará), Mad Max é um filme que consegue criar um ambiente novo e surreal que é mostrado pelo visual e por detalhes, e não por diálogos e exposição. É um filme-filme e não um filme-livro. E tem todo o meu amor e respeito por isso.
                Claro que não vai ganhar Melhor Filme. Ninguém realmente sonha. Mas sua indicação é um ótimo sinal pro futuro, deve ganhar vários (se não todos) prêmios técnicos e tomara que a inevitável continuação seja tão boa quanto. E tenha o Tom Hardy. Amén.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Cinematografia, Melhor Edição, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem, Melhor Efeito Visual, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som
Deve levar: todos os prêmios técnicos do universo. Pense Senhor dos Aneis no passado.


Perdido em Marte


(The Martian. Ridley Scott, 2015)

                Esse foi a minha segunda surpresa. Porque Perdido em Marte é uma comédia, e comédia não são indicadas a não ser que sejam dirigidas pelo Woody Allen. Ridley Scott é um diretor reconhecido, claro, mas ainda assim: comédia. Comédia com ficção científica e um certo drama no espaço, mas não deixa de ser um filme com mais humor do que drama.
                De qualquer forma, é outro bom sinal, assim como Mad Max, para a possibilidade de um futuro com filmes diferentes indicados, e não apenas mais do mesmo dramalhão com filtro azul de duas horas com um protagonista sofrendo.
                Matt Damon está indicado como melhor ator (o que muito me surpreende quando XXX de O quarto de Jack não foi, mas beleza) e ele faz, como normalmente, um ótimo trabalho. O filme é basicamente ele sendo maravilhoso em Marte e é isso. É entretente, é divertido, ótimos efeitos, não posso opinar sobre a ciência da coisa como sei nada sobre o espaço, mas ouvi falar que estava ok.
                Embora tenha gostado, ainda assim tive dois grandes problemas com esse filme: 1) som. Galera, sei que Inception foi um puta filme, ainda amo mais do que muita gente na minha vida, mas precisa colocar aquele “PAM” de música de suspense a cada 5 segundos em uma cena? Certas influências devem morrer, porque isso é irritante pra caramba; 2) o filme chama de Perdido em Marte, vi no trailer que ele está perdido em Marte criando plantas, todos sabe que o filme tem mais de duas horas então é claro que ele não vai morrer nos primeiros 15minutos. Filmes podiam parar de tentar criar tensões óbvias e só seguir com a vida – pula pra próxima cena que ninguém vai morrer, caralho.
                Fora isso, bom filme. Não deve levar nada, claro, exceto talvez algum prêmio técnico. Mas válido. Pessoalmente, acho que Divertida Mente deveria ter sido indicado a Melhor Filme mais do que esse, mas o que um bom lobby e o nome do diretor não faz, não é mesmo?
Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Principal (Matt Damon), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Efeito Visual, Melhor Direção de Arte, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som
Deve levar: Sempre existe a chance de algum técnico (sou bem ruim em adivinhar técnicos, sempre fui), mas ainda acho que Mad Max tem mais chance nessa parte.

O Regresso

(The Revenant. Alejando Iñárritu, 2015)

                Unpopular opinion time: Leonardo diCaprio não merece o Oscar que vai ganhar por esse filme.
                Ele merece um Oscar? Sem a menor dúvida. Jamais me conformarei que não ganhou um por Revolutionary Road (e nem indicação, pq a Academia decidiu que indicar por Diamente de Sangue era melhor? Babacas). Ele é um ótimo ator injustiçado a um ponto que virou piada? Claramente. Essa é a melhor atuação do ano e portando merecia ser premiada? Não. Desculpa, mas não.
                Tudo o que o diCaprio faz nesse filme é grunhir e não morrer. Quero nem saber o desconforto que o ator sofreu, ou que ele dormiu numa carcaça de animal e pegou pneumonia e quase morreu. Isso pouco importa (é tipo quando você assiste, sei lá, The Voice e a pessoa fica “ai, mas eu larguei tudo para estar aqui, emprego/família/escola, só tenho essa chance!” – ninguém mandou, se não cantar bem vai ficar sem emprego/família/escola pra largar de ser besta). O que importa, por exemplo, é que Tom Hardy está melhor do que diCaprio nesse filme (o fato de que ele vai perder o Oscar pro Rocky me machuca profundamente pq Tom Hardy é vida) e ninguém nem fala dele pq o momentum Oscar é todo diCaprio. Ele vai ganhar, claramente, e em geral ele merece ter um Oscar no currículo. Uma pena que venha por esse filme.
                Que não gostei, inclusive. Em geral, curto o Iñárritu. Birdman foi um dos meus favoritos anos passado. Esse filme é a definição maior de “trying too hard” – a pessoa DORMIU NUMA CARCAÇA, galera. Se isso não é forçar demais a barra, não sei o que é.
                Achei o filme longo, desnecessário, monótono, azul e um pouco óbvio demais com certos comentários sobre direitos dos índios americanos (o que não seria um problema em si se a edição do filme não tentasse muito ser artística com composições de imagens metafóricas de sonho. Ou você brinca de metáfora ou você brinca de comentário escancarado. Os dois? Fode o tom do seu filme). De positivo tenho a dizer: Tom Hardy (can I get an Amen?) e o fato de que os índios não falam inglês.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Leonardo diCaprio), Melhor Ator Coajuvante (Tom Hardy), Melhor Cinematografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Maquiagem, Melhor Efeito Visual, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição, Melhor Figurino
Deve levar: Melhor Ator Principal. Gostaria muito de Melhor Ator Coadjuvante. Pessoalmente, não queria bem Melhor Filme nem Melhor Diretor, mas né? Um dos dois deve levar (se não os dois). Num mundo ideal, levaria Melhor Diretor e perderia Melhor Filme para A Grande Aposta. 
Deve melhor Melhor Cinematografia pq "ai meu Deus, filmado com luz natural!!!!". Sem desmerecer esse feito, por quê? Só porque você pode não quer dizer que deveria, pq a iluminação desse filme cansa demais os olhos. 

O quarto de Jack


(Room. Lenny Abrahamson, 2015)

                Vamos falar de coisa séria agora: o que é a atuação dessa criança, e como ela não foi indicada? Pelo amor de Deus, galera, prestenção.
                The Room é o meu favorito dessa lista, de longe. Lindo filme, fotografia fantástica, ótima história, atuação impressionante tanto da Brie Larson (a mãe) quanto do Jacob Tremblay (o Jack do título) e se você precisar ver apenas um filme da lista dos melhores desse ano, faça um favor a si mesmo e escolha esse.
Tudo o que sabia quando comecei a assistir é que uma mãe e um filho moravam num quarto pequeno pq sim. Não quero contar mais detalhes caso você queira ver esse filme e prefira assistir sem preparação (como eu fiz, e foi uma excelente escolha). Só tenho a dizer que é amor, e que se todas as indicações fossem nesse nível, não teria mais do que reclamar.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Atriz Principal (Brie Larson), Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado
Deve levar: se existe justiça nesse mundo, Melhor Atriz Principal. Se existisse justiça nesse mundo, Jacob Tremblaylevaria Melhor Ator Principal, mas acho que o mundo não tinha mais condições de não dar esse prêmio pro diCaprio, então nem indicação ele levou.

Spotlight


(Spotlight. Tom McCarthy, 2015)

                Spotlight conta a história de um grupo de jornalistas que descobre o escândalo de padres pedófilos na igreja católica. Ponto final.
                Filmes que são perfeitamente resumidos em uma frase, em geral, não são bons filmes. Filmes baseados em fatos reais que são perfeitamente resumidos em uma frase quase nunca são bons filmes. Ainda mais quando seguem a fórmula de narração ainda presa a uma estrutura escrita e ficam ainda mais tradicionais e sem graça. 
                A história desse filme é interessante. O livro dessa história seria ótimo. O filme em si? É ok. Não é ofensivo, tem atores bons, Mark Ruffalo é sempre uma graça, mas... bleh. O filme como ferramenta narrativa visual foi tão mal utilizado que seria engraçado se não fosse tão comum. O fato desse filme estar indicado para Melhor Diretor e Melhor Edição é um tapa na cara da sociedade.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Melhor Atriz Coadjuvante (Rachael McAddams), Melhor Roteiro Original, Melhor Edição
Deve levar:  risos ao fundo
Tá, mentira. Pode levar Melhor Roteiro Original.