Porque se o José Wilker pode, eu também posso.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Oscar 2019


Oscar 2019

ou

Oscar? Relevante? Nessa economia?


 Mais um ano, mais um Oscar, mais um post no blog porque me falta vergonha na cara de deixar essa “tradição” morrer. A premiação tá cada vez mais batida, os filmes cada vez menos válidos, o interesse do público cada vez menor, mas eu continuo aqui – como aquela espinha que você acha que sumiu mas fica voltando no seu rosto sempre que como chocolate.

Esse ano, a coisa estava tão feia que a Academia não conseguiu nem achar dez filmes que dava pra fingir que eram ok o suficiente para indicar para Melhor Filme: temos apenas oito dessa vez. E desses oito, cinco são... ok. “Ok” define o Oscar desse ano como nunca antes – nada é realmente ruim, mas pouca coisa é realmente boa. Um desfile de mediocridade que sempre poderá escrever “Filme indicado ao Oscar” na capa do DVD. Depois ainda reclamam que “ai mais o Oscar está perdendo a audiência, ai está perdendo a relevância...” Susan, quando você me indica ao mesmo Oscar Nasce uma estrela e Green Book – o Guia, o que espera? A palavra “ok” praticamente patrocinou a premiação desse ano – dá pra fazer um drinking game lendo esse meu post.

Bem-vindo à decepção deste ano, patrocinada por 3 filmes com tema de racismo pq a white guilt nunca esteve tão viva em Hollywood:


A Pantera Negra

(Black Panther. Ryan Coogler, 2018)



Quando A Pantera Negra recebeu a indicação para Melhor Filme, algumas pessoas vieram me perguntar o que achava disso, já que é a primeira vez que um filme de super-herói popular recebeu essa distinção, e não é óbvio que foi para a Academia parecer mais antenada e descolada e na vibe da galera jovem e que está forçando porque é um filme popular de super-herói que ainda por cima lida com questões de raça e racismo e blá blá blá.
Em 2015, quando Mad Max recebeu a indicação, escrevi o seguinte neste mesmo blog: “...só a indicação já abre precedente para um futuro menos esnobe”.
Não tenho problema nenhum com a possibilidade de filmes de ação/populares serem indicados ao Oscar. Se o filme for bom, não quero nem saber em qual sessão do Netflix ele vai ser colocado depois. Agora, o ponto principal aqui é: A Pantera Negra é bom o suficiente para ser indicado ao Oscar?
Resposta curta: não. Resposta longa: o Oscar está tão ruim esse ano que claro, por que não?
Se você me indicar Nasce uma estrela, não tem razão nenhuma para não indicar A Pantera Negra. Um é um romance musical bege e o outro é um filme de ação bege, os dois têm direitos iguais na minha casa. Não vi ninguém (além de mim) reclamando que o filme da Lady Gaga foi indicado, mas a internet ficou louca e mto puta que tiveram a pachorra de indicar A Pantera Negra. Se isso aqui fosse 2011 quando a gente tinha filmes como Discurso do Rei e A Origem e Cisne Negro, claro, ia ficar brava também. Na conjuntura atual da vida? Ele tem tanto direito (ou nenhum direito) de estar aqui como cinco de oito dessa lista.
Galera puta no twitter gritando “cotas!!” pode ficar tranquila de qualquer forma, pq não vai ganhar Melhor Filme de qualquer forma.
E não, não vou resumir a história desse filme pq todo mundo e seu cachorro já assistiu, e se você não viu, é claramente pq não quis.
Indicações: Melhor Filme, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som
Deve levar: Nunca Melhor Filme, foi claramente uma sinalização da Academia que vão começar a seguir cada vez mais para um futuro menos Filme Silencioso Europeu Que Só Duas Pessoas Assistiram e não uma coisa real com chance de ganhar. Queria muito Melhor Trilha Sonora Original pq Kendrick Lamar, ganhador do Oscar? Sim, pfvr.


Infiltrado na Klan

(BlacKkKlansman. Spike Lee, 2018)



Infiltrado na Klan é um filme baseado em fatos reais (nº 1 nessa lista) sobre a história de um policial negro que se infiltrou na KKK e tem uma carteirinha com o nome dele e número de associação até hoje. O que me leva a minha primeira surpresa: a KKK tem na real uma carteirinha de associação, olha as coisas.
A história é bem o que você espera mesmo: bando de racistas babacas querendo matar negros e judeus e gays pq são racistas babacas, exceto que no final você fica deprimido com a vida pq o bando de racistas babacas está vivo e bem e no poder.
De qualquer forma, esse é um daqueles filmes... ok. A história é melhor do que o filme em si, e pela história tem sempre o livro que você pode comprar e ler. Esse filme sofre do mesmo problema que a maioria dos filmes e uma das coisas que mais me irrita e que mais reclamo nesse blog: não quero um livro filmado, quero um filme que use todas as possibilidades e aspectos do meio visual para contar uma história. Considerando que a direção é do Spike Lee, esperava uma direção criativa um pouco além do convencional, mas não. O filme liga todos os pontos necessários para criar um filme e não é ruim ou mal feito nem nada. É só... mais um. Podia ser tão melhor.
Vale a pena pela história, tecnicamente não pelo filme. É apenas ok.

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Spike Lee), Melhor Ator Coadjuvante (Adam Driver), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora, Melhor Edição
Deve levar: Não vai levar Melhor Filme nem Melhor Direção, risos. Pode levar Melhor Roteiro Adaptado, o que seria justo (é um livro filmado, como mencionei) e/ou Melhor Trilha Sonora.


Bohemian Rhapsody

 (Bryan Singer, Dexter Fletcher. 2018)



Filme baseado em fatos reais (n.º 2 da lista) contando a história da banda Queen, focando mais no papel do Fred Mercury na história do que qualquer coisa. É um filme muito divertido, e se você curte Queen (quem não, na real?) vai gostar do produto final. Meu pai até chorou e tudo.
Agora, sei muito bem a reação do mundo ao dizer isso, mas não é como se ligasse de irritar pessoas com esse blog: é apenas ok.
“Ai Livia, mais pelo amor, como você é chata. Acabou de falar que gostou do filme, caralho”
Sim, gostei. Assistira de novo. Mas isso aqui é o Oscar, que deveria ser os melhores filmes produzidos durante um período de 365 dias na maior indústria de produção cinematográfica do mundo. OS MELHORES. ENTRE TODOS. OS FILMES.
Bohemian Rhapsody é legal, é ok (mais uma dose), é divertido, mas é um exemplo da sétima arte? É diferente, é inovador, tem uma marca, um ponto de vista, algo a dizer que faz com que se destaque de qualquer outro filme produzido antes ou depois? Não, não tem.
A única coisa digna de nota real desse filme é a atuação do Rami Malek como Fred Mercury, que deve levar Melhor Ator. Fora isso... a trilha sonora é incrível, mas a trilha sonora é Queen e Queen é incrível, então não é exatamente um mérito do filme.
Honestamente, senti que o filme ficou perdido entre ser uma biografia do Fred Mercury ou uma história da banda, e ficou num meio-termo morno que não foi fundo em nenhum dos dois caminhos. Sem contar a hesitação do filme de realmente-realmente mostrar o Fred Mercury como um babaca narcisista: colocou o pé na água da piscina, mas achou que estava muito frio e perdeu a coragem. Quem sabe se tivesse mergulhado, poderia ter sido excepcional.

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Rami Malek), Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição
Vai levar: Melhor Ator (Rami Malek), muito merecido. Sinto muito Christian Bale sendo gordo e velho, não foi dessa vez.
Pode levar: por mais que me doa escrever isso, Melhor Filme é uma opção pq o universo é uma piada. Não opino em prêmios técnicos de som, mas não ficaria surpresa se levasse.


A Favorita

(The Favourite. Yorgos Lanthimos, 2018)

Finalmente, senhor, um filme realmente bom nessa lista! Glória está entre nós.
A Favorita conta a história (fictícia, outra glória, não aguento mais “baseado em fatos reais” no meu escapismo cinematográfico) do reinado da Rainha Anne (Olivia Colman), comandante fraca e perturbada, controlada pela Duquesa de Marlbourough (Rachel Weisz) por meio de um relacionamento codependente e autodestrutivo. Até chegar a pobre Abigail (Emma Stone), que tenta se tornar a nova favorita da Rainha e ocupar uma posição social melhor.
O trio principal está todo indicado por atuação, e todas elas merecem. O diretor grego, que não conhecia (e nunca vi nada antes) criou um universo da realeza sem glamour ou disfarces: o filme é sujo, visceral, brutal e não tem a menor vergonha ou problema com isso.
Você sai do filme com um desconforto perverso de ter visto algo que não deveria, mas ao mesmo tempo quer sofrer mais da sujeira e podridão da época, da segurança de seu sofá.
Filmes que evocam emoções além da história escrita, que conseguem criar visualmente sensações me deixam extremamente felizes, pq é justamente isso que um filme deveria ser. Yorgos Lanthimos não cria um filme agradável, mas cria uma obra marcante – e me deixou interessada o suficiente para ir atrás de outros filmes com sua assinatura.
Dica? Assistam A Favorita. Você pode não gostar, mas vai sentir alguma coisa, o que é mais do que qualquer filme que veio antes nessa lista conseguiu de verdade.

Indicações: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz (Olivia Colman), Melhor Atriz Coadjuvante (Emma Stone, Rachel Weisz), Melhor Roteiro Original, Melhor Cinematografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino, Melhor Edição
Pode levar: queria muito de verdade que levasse a dupla Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante (difícil escolher entre Rachel Weisz e Emma Stone, mas apostaria na Emma Stone por pura preferência pessoal. As duas estão absurdas). Reza a lenda que Glenn Close leva Melhor Atriz por um filme que ainda não vi, então nem sei opinar. Estou dividida sobre Melhor Cinematografia / Melhor Direção de Arte pq Roma existe, e os dois filmes são sublimes, mas com pontos de vista muito diferentes.
Deveria levar: Melhor Roteiro Original. Nem se atrevam a dar para Green Book que vou pessoalmente dar na cara de todos os envolvidos. Melhor Figurino é sempre uma aposta segura em filme de época.


Green Book – O guia

(Green Book. Peter Farrelly, 2018)



Esse filme. Ai meu Deus, esse filme. Argh.
Baseado em fatos reais (choque!), conta a história de um pianista negro (Mahershala Ali) que vai fazer uma turnê pelo sul dos EUA nos anos 1960 e precisa de uma proteção. Para isso, contrata um estereótipo ambulante italiano (Viggo Mortensen) para ser seu guarda-costas nessa empreitada. Nesse Conduzindo Miss Daisy em reverso, os dois passam por poucas e boas em busca de aventura e em clima de azaração.
Será que o pianista vai deixar de ser tão certinho e comer frango com a mão?
Será que o italiano vai deixar de ser preconceituoso e aceitar o negro como amigo?
O filme é tão clichê que dói. Pior: o filme é desnecessário e seria considerado “datado” se tivesse sido lançado há 15 anos. Por que ele está nesta lista? Não faço ideia, pq, honestamente, a única coisa que o personagem branco do filme faz é ter a coragem de conhecer o pianista. É isso. Cadê o desfile em honra dessa alma caridosa que se dignou a conversar com um negro como se eles fossem iguais? Estou no aguardo.
É ruim, é batido, é forçado para um caramba pra você chorar ou sentir “mas olha, somos todos iguais no fundo! Mais uma vez, um branco com a “mente aberta” venceu o racismo”
Sério. Assiste Conduzindo Miss Daisy mesmo que pelo menos aquele filme tem a desculpa de ser antigo e tem o Morgan Freeman.
Desgraça de filme ridículo que me roubou 2h da minha vida para ser um grande zero.

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Viggo Mortensen), Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Melhor Roteiro Original, Melhor Edição
Pode levar: ah sim, esse filme pode levar coisas! Como Melhor Ator Coadjuvante. Considerando a competição, que tá fraquíssima, nem ligaria.
Não deveria levar nem com reza brava: Melhor Roteiro Original. Pega na minha e balança que é por esse tipo de coisa que ninguém leva o Oscar mais a sério, Susan.

 Roma

 (Alfonso Cuáron, 2018)



Todo mundo tinha ouvido falar desse filme. Tem até disponível no Netflix, sabe.
O filme preto e branco em espanhol indicado ao Oscar de Melhor Filme. Um dos (se não o mais) cotado a ganhar e ser o querido da noite. Ouvi muita coisa antes de assistir e confesso que esperava que fosse basicamente hype sem sentido.
E estava errada. Adoro estar errada nessas situações.
Roma é o melhor filme dessa lista. Ponto final, sem discussão.
Roma veio na minha casa, curou minhas feridas, salvou meu primogênito da pneumonia, assou um bolo de cenoura e foi embora depois de me colocar na cama.
Não sei nem como explicar Roma, pq não é um filme em que a história em si (a história de uma empregada doméstica e a família para a qual trabalha em meio à turbulenta situação política e social do México de 1970) é importante: não tanto quanto o simbolismo e a cinematografia. Praticamente o oposto de A Favorita – nele, temos um filme duro, bruto, pesado, ofensivo. Aqui, temos um filme belo, suave, sutil, delicado, artístico. Cada tomada é uma pintura simbólica, cada escolha artística tem um significado profundo.
Como brasileira, é ainda interessante notar como as estruturas sociais da América Latina se repetem. Posso não morar no México daquela época, mas conheço cada um daqueles personagens pq já vi todos por aqui, no Brasil do século XXI.
Não existe razão nenhum pq Roma não deveria terminar esta noite com Melhor Filme e Melhor Direção. Nenhuma. Nada aqui chega nem perto – é como comparar uma criança pintando um casinha com um sol no canto com um quadro do Van Gogh.
Esse filme está indicado para Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro e claramente não vai ganhar os dois. É possível que ganhe Melhor Filme Estrangeiro e perca Melhor Filme, mas boa sorte em achar qualquer justificativa que não xenofobia aqui, pq é honestamente outro nível de qualidade sendo jogado na nossa cara. Mas, sabe, estamos falando dos EUA, logo...

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz (Yalitza Aparicio), Melhor Atriz Coadjuvante (Marina de Tavira), Melhor Roteiro Original, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Cinematografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som
Deveria levar se galera quer ter qualquer tipo de credibilidade: Melhor Filme. Não me lembro de nenhum Oscar em que um dos filmes fosse tão claramente superior ao resto como esse. Se levar Melhor Filme, não deve levar Melhor Filme Estrangeiro (e vice-versa) – ou seja, Melhor Filme Estrangeiro é anunciado antes do prêmio máximo, vai dar pra ter uma boa noção do final da noite após esse prêmio. Independentemente de qual dos “Melhor Filme” levar, Melhor Direção é do Cuarón.
Pode levar: Melhor Cinematografia e Melhor Direção de Arte. Esse filme é seriamente ofensivo de tão lindo.


Nasce uma estrela

(A Star is Born. Bradley Cooper, 2018)



Bom, seguinte: sei que todo mundo amou esse filme. Sei que todo mundo ama a Lady Gaga. Sei que todo mundo quer que a Lady Gaga ganhe seu Oscar de Melhor Atriz para sambar na cara da sociedade. Mas, sinto muito para todos os envolvidos, preciso ser honesta: esse filme é meramente mais um filme clichê (ainda mais considerando que é a quarta vez que eles refazem esse mesmo filme, gente, segura essa onda, tá pior que os reboots do Homem Aranha) e não merece um terço de toda a atenção.
Contando a história de uma garçonete com uma voz de ouro (Lady Gaga) que sonha em ser famosa e seu romance com um cantor famoso que abre portas para ela (Bradley Cooper). Mas nem tudo está bem no reino da Dinamarca, pq ele é viciado em drogas e álcool! Oh não! O romance deles dará certo em meios aos vícios e ao drama de ser famoso?
O filme vale a pena por uma razão e uma razão apenas: pq a Lady Gaga canta para caramba. Fora isso? Divide em cinco partes e passa na sessão da tarde. Ele é divertido e entretente, e vale a pena assistir. Mas como você quer olhar na minha cara e me falar que Roma e A Favorita existem no mesmo universo de qualidade que Nasce uma estrela? Tome tento.

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Bradley Cooper), Melhor Atriz (Lady Gaga), Melhor Ator Coadjuvante (Sam Elliott), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Cinematografia, Melhor Mixagem de Som, Melhor Canção Original
Vai levar: Melhor Canção Original.
Pode levar: não descarto a possibilidade de a Lady Gaga levar Melhor Atriz. Não acho que leva, mas se levar, nada pra se ofender também. Ela é a única coisa que eleva um pouco esse filme.


Vice


(Vice. Adam McKay, 2018)

Esse filme conta a história de Dick Cheney, o vice-presidente do George W. Bush. E assim que li essa frase, já pensei “mas que merda. A única coisa que me importa menos que saber sobre o Bush é saber sobre o vice dele”. Mas, como está na lista, fui assistir. E só depois de dar play que me percebi que era um filme do Adam McKay.
Quem é Adam McKay, você se pergunta? O diretor de A grande aposta, o meu filme favorito do Oscar de 2015 (e que, claro não ganhou nada, assim como esse tb não vai).
Adam McKlay está rapidamente se tornando um dos meus diretores favoritos pela forma como escolhe para contar a história: seus filmes não seguem os padrões tradicionais de narração e usam e abusam dos efeitos, edições e saídas visuais criativas e diferentes. O assunto em si (política, ew, política americana, mais ew ainda) não me interessa nem um pouco. Mas em A Grande Aposta, ele estava falando sobre a bolha da crise hipotecária americana e foi um ótimo filme. Aqui, ele fala sobre Dick Chaney e é interessante. Esse dom é algo mágico e mal posso esperar pelo próximo filme dele. Se um dia ele decidir fazer um filme sobre um tema que me interessa de verdade, tem potencial de ser um dos meus favoritos da vida.
Se quer uma representação concreta da minha reclamação de “filmes não devem ser livros filmados”, assista Infiltrados na Klan e depois veja O Vice. Vai saber exatamente o que quero dizer.
Um filme irreverente, diferente, com um diretor autoral (saudades que estava desse conceito) e uma perspectiva nova: um exemplo do que espero de um filme na lista dos melhores do ano de Hollywood.

Indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Christian Bale), Melhor Atriz Coadjuvante (Amy Adams), Melhor Roteiro Original, Melhor Edição, Melhor Maquiagem e Cabelo
Deve levar: um grande sorriso e um troféu de participação (talvez Maquiagem e Cabelo como consolação). Christian Bale teria chance em qualquer outro ano, mas com o Malek deitando como Fred Mercury, não dever rolar esse ano. Sinto que a Amy Adams também não leva esse ano, e honestamente, qualquer uma das duas amigas de A Favorita merecem mais que ela mesmo. Amo a Amy, mas não por esse filme.
Gostaria que levasse: Melhor Roteiro Original. Sei que amei A Favorita, mas se tivesse que escolher entre os dois pra “Original”? Esse mesmo.

domingo, 4 de março de 2018

Oscar 2018


Mais um ano que começa, mas uma premiação do Oscar com piadinhas forçadas, baixa audiência e desinteresse geral da nação. Ah, tradições!
Falando em tradições, mais uma vez temos uma lista de indicações completamente bege. Se você for realmente me falar que esses filmes são os nove melhores exemplos de produções cinematográficas produzidas nos EUA durante o ano de 2017 todo, não é de se espantar que Hollywood tá ganhando cada vez menos dinheiro. Dessa lista, apenas dois são realmente bons, e gostei de três. Um terço. O resto? Várias horas da minha vida que não voltam mais.

Mas, assim como aqueles casais de namorados que estão juntos faz 10 anos, não têm mais assunto e ainda assim continuam saindo pra comer lanche de sábado a noite só porque faziam isso no começo de namoro, eu também continuo com esse blog e meu post anual sobre o Oscar – rotina manda beijos.

Me chame pelo seu nome


(Call me by your name. Luca Guadagnino, 2017)

A primeira e única coisa que sabia sobre esse filme, muito antes de ele ser indicado ou de ter parado para assisti-lo, é que tratava de um romance homossexual entre dois homens. Agora, um dos problemas que sempre ocorrem quando você tem um filme com um tema “polêmico” (racismo, homossexualidade, machismo) é que muitas vezes o pessoal desculpa muito das faltas do filme só pq ele trata sobre um assunto culturalmente relevante. Na maioria das vezes que vejo um filme indicado ao Oscar desse naipe, ele é... ok. Nada demais, ou de menos. Vocês lembram de Brokeback Mountain, né? Quer filme mais superestimado do universo do que esse, mas como tinha um casal gay, todos pirou na época? Então cheguei com um certo pé atrás antes de assistir, confesso, insegura de se estávamos falando de um bom filme que lida com homossexualidade ou apenas de um filme com gays no pôster.
Estamos falando de um bom filme que lida com homossexualidade, graças.
Contando a história de um romance de verão entre Elio (Timothée Chalamet) e Oliver (Armie Hammer), o filme cria uma colagem de momentos comuns da vida, cada peça, por menos que pareça, criando a composição final de como alguns meses podem alterar toda uma vida. Estamos falando aqui de um filme sem muita história além do romance básico, com um diretor europeu que claramente segue a escola Europeia Tradicional De Se Fazer Filmes (planos abertos, cenas estáticas mantidas por vários segundos, silêncio, trilha sonora instrumental) e atuações excelentes, especialmente do Timothée Chalamet, que mal conheço mas já considero pacas.
O resultado é um filme singelo e honesto sobre o amor, lindamente filmado e com ótima cinematografia. Sem dar spoilers, mas é digno de nota que a cena final desse filme (se você assistiu, sabe do que estou falando) é uma das melhores decisões autorais de um diretor que vi nos últimos tempos, e tudo nela é perfeito: iluminação, composição, música, e principalmente atuação.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator (Timothée Chalamet); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Canção Original
Vai levar: Imagino que nada, além de um aumento de vendas do dvd por poder colocar “4 indicações ao Oscar!” na capa.


O destino de uma nação




(Darkest Hour. Joe Wrigh, 2017)

Olha só, fizeram um filme sobre Churchill. Alguém estava querendo um filme sobre ele? Se você é uma das 15 pessoas no mundo que estavam morrendo pra ver uma produção em grande escala sobre esse líder político inglês na segunda guerra mundial, esse é o seu momento. Se é uma pessoa normal como o resto de nós... é apenas mais um filme de guerra.
Quem me conhece sabe que não suporto filme de guerra – de um ponto de vista puramente pessoal, claro, mas pra mim são todos iguais, e a mensagem é sempre a mesma: guerra é ruim, a humanidade é um monstro, precisamos ser melhores no futuro.
Todos sabem, amigo, sempre souberam e isso nunca impediu a humanidade de continuar fazendo guerra e sendo um monstro.
Um filme de guerra costuma ter duas embalagens tradicionais: aquele que ocorre no meio da batalha (com tiros e sangues e soldados gritando e provavelmente pelo menos uma cena em câmera lenta) e aquele que ocorre nos bastidores e conta a política por trás da barbárie. O destino de uma nação é o segundo caso – Churchill (Gary Oldman, que deve levar o Oscar porque a Academia pira em transformação corporal) assume como primeiro ministro na Inglaterra qdo a Europa está a beira da guerra, e precisa decidir se vai lutar contra Hitler ou tentar um acordo, “salvar” o Reino Unido e
Se você terminou o colegial, sabe a decisão que ele tomou.
Se você já viu qualquer filme na vida, sabe muito bem como esse será: mais uma multidão que jamais lembrarei em três anos.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator Principal (Gary Oldman); Melhor Direção de Arte; Melhor Cinematografia; Melhor Maquiagem; Melhor Figurino
Deve levar: Gary Oldman deve levar melhor ator, ficaria muito surpresa se não fosse o caso. Sou bem ruim em prever qualquer coisa técnica (até porque, em geral, nunca vejo todos os filmes indicados para todas as categorias, então muitos deles eu não assisti), mas Melhor Maquiagem não seria nem um pouco chocante.


Dunkirk



(Dunkirk. Christopher Nolan, 2017)

Mais um filme de guerra, yay – só que dessa vez do segundo tipo, pra você ver de perto a dor que é morrer pelo seu país.
Baseado em fatos reais, o filme conta a história dos soldados que ficaram presos na praia de Dunkirk, esperando a evacuação (caso ela viesse) e sendo mortos por artilharia alemã durante o processo. Não é exatamente um filme ruim, e tenho vários pontos a elogiar aqui (especificamente cinematografia, que é absurda de linda, e edição), mas tem um grande problema incontornável: o filme nunca cala a boca.
Durante mais de 2 horas fui obrigada a ouvir um som ao fundo de todas as cenas, que variava de intensidade e de estilo, mas estava sempre ali: possivelmente pra destacar o quanto a situação é hostil e tensa, mas na realidade me dando nos nervos como nunca antes. Sei que deu certo em Inception, amigo, mas deu porque rolou de vez em quando. Em todas as cenas? É forçar demais. O fato de que esse filme tá indicado pra melhor edição e mixagem de som me faz pensar que todos na Academia precisam de um abraço.
 Nolan é um dos meus roteiristas favoritos (e um diretor ok, a meu ver, nunca achei nada demais ou menos) quando ele cria um roteiro original. Nesse caso, nesse filme? Podia ser de qualquer outra pessoa – se me falasse que o JJ Abrams dirigiu, eu acreditava, de tão genérico.
É ruim? Não. É bom? Também não. É bem filmado e não ofensivo e relativamente entretentente, então se estiver sem nada para fazer num domingo a tarde... eu ainda tiraria uma soneca, mas se estiver sem sono, esse filme pode até valer a pena – mas não garanto nada.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor (Christopher Nolan); Melhor Cinematografia; Melhor Edição; Melhor Trilha Original; Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som; Melhor Direção de Arte
Dele levar: Só pra rir da minha cara, é capaz dessa moléstia levar Melhor Edição e Mixagem de Som, pq o universo não está de brincadeira. Se não fosse porque A forma da água existe, apostaria nele para Melhor Cinematografia e Direção de Arte – ele ainda pode levar, ao menos um dos dois, mas o outro é melhor. Melhor Edição deve ser dele.


Corra



(Get out. Jordan Peele, 2017)

O meu filme favorito dessa lista, de longe, e também o único que já tinha assistido antes das indicações sairem (ou seja, vi por livre e espontânea vontade, e não só pq sim). Um dos dois filmes nessa lista (o outro é A forma da água) que considero filmes verdadeiramente bons, em todos os pontos de vista: desde técnicos até roteiro e atuação e música e... e...
Por que quem consegue transformar o que poderia ser mais um filme de terror clichê em um comentário extremamente bem estruturado sobre o racismo nos Estados Unidos, com uma atuação deslumbrante do Daniel Kaluuya (minha escolha pra melhor ator, embora saiba que não vai ganhar) e uma direção magistral que me deixou chocada a cada segundo sobre como é brilhante? Sério, tudo nesse filme é incrível, e de um ponto de vista puramente técnico, é possível fazer uma tese de mestrado somente sobre as escolhas de ângulo de câmeras nas cenas. Se você pode ver apenas um dessa lista, assista Corra e mergulhe nessa genialidade – isso não acontece sempre.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor (Jordan Peele); Melhor Ator (Daniel Kaluuya); Melhor Roteiro Original
Merecia levar: Se esse filme não levar Melhor Roteiro Original eu juro por todos os deuses que vou dar um jeito de aparecer em LA e quebrar tudo naquele teatro – sei que A forma da água também é incrível, mas já vai levar Melhor Filme/Diretor. Deixa meu Melhor Roteiro Original pra Corra, por favor.


  

Lady Bird: é hora de voar
 (Lady Bird. Greta Gerwig, 2017)

Então, esse filme... existe.
Contando a história de uma adolescente chamada Christine, mas que insiste em ser chamada de “Lady Bird” (Saoirse Ronan) e suas aventuras em clima de muita azaração com uma galerinha da pesada (além da relação conturbada com a mãe), esse é um filme bem sólido sobre uma pessoa se encontrando na vida adulta. E apenas isso.
Do jeito que ouvi falar antes de assistir, era para se esperar que Jesus tivesse voltado à terra – mas não, não tem seriamente nada demais (ou de menos, é só genérico) nesse filme.
O fato de que foi indicado pra melhor filme quando o infinitamente superior Eu, Tonya não foi é bizarro pra mim. O fato de que foi indicado pra melhor direção é ainda pior pq a direção desse filme só não é mais previsível e sem graça porque ele não é maior.
Juro que não sei nem o que escrever sobre esse filme, ele é tão... normal. Divide em 5 partes e dubla e rola passar na sessão da tarde, depois de vale a pena ver de novo.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção (Greta Gerwig); Melhor Atriz (Saoirse Ronan); Melhor Atriz Coadjuvante (Laurie Metcalf); Melhor Roteiro Original
Deve levar: Eu diria que nada. Tem gente apostando na Saoirse pra Melhor Atriz Principal, e ok, ela faz um bom trabalho – mas tem gente melhor. Espero que nem se atrevam a dar Melhor Roteiro Original pra isso e não pra Corra, que vai ter sangue nas ruas se esse for o caso.


Trama Fantasma



(Phanton Thread. Paul Thomas Anderson, 2017)

Ai, esse filme. Esse filme, meu senhor.
2h20 de pura sofrência e ódio no sofá da minha sala, questionando seriamente que tipo de vida estou vivendo, que me forço a fazer essas coisas todos os anos.
A história é a seguinte: um costureiro solteirão Reynolds (Daniel Day-Lewis) se apaixona por uma garçonete desastrada Alma (Vicky Krieps) e ela acaba se tornando sua musa durante um relacionamento conturbado e emocionalmente abusivo.
Tenho uma série de problemas reais com esse filme. Os principais são: o diretor (Paul Thomas Anderson) queria muito fazer um filme europeu – exceto que ele não é europeu, e emular a escola Europeia Tradicional De Se Fazer Filmes não é pra qualquer um. Tudo o que eu senti foi como a pessoa estava querendo muito ser mais profundo e artístico do que provavelmente é; estamos falando de um universo em que todas as mulheres ricas se sentem feias até serem validadas pela roupa do estilista que é um filha da puta – pq nada como a aprovação masculina pra animar o seu dia. Duvido que preciso explicar o quanto isso é problemático, e o filme não toca de verdade nesse ponto (nem para aprovar ou desaprovar) e tenho minhas dúvidas se tal ponto foi sequer considerado; o personagem do Daniel Day-Lewis é o único homem do filme inteiro (um médico aparece no final e fala por 3 segundos) e os flashbacks de anime de harém foram reais aqui; e finalmente o roteiro é tão “fake deep” que o nome da personagem principal é ALMA e ela dá um novo sentido a vida do cara.
De um ponto de vista técnico, sim, admito que é um bom filme. Mas odiei, e não recomendo para ninguém. Me deixou desconfortável durante todo o processo, e a melhor coisa pra mim, que foi a atuação da personagem principal, não recebeu indicação. Logo...

Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator (Daniel Day-Lewis); Melhor Atriz Coadjuvante (Lesley Manville); Melhor Trilha Sonora; Melhor Figurino
Deve levar: Melhor Figurino é sempre possível quando temos um filme sobre roupas, e o Daniel Day-Lewis está ótimo nesse papel (mas o Sirius Black tá gordo pro Churchill, então não tem competição real), mas seriamente espero que não leve nada. E que apague minha memória também.
Merecia levar: um tapa na cara, pra largar de ser besta


The Post: a guerra secreta



(The Post. Steven Spielberg, 2017)

Ok, é um filme: baseado em fatos reais, sobre a liberdade de imprensa na América do Trump, com a Meryl fucking Streep e o Tom fucking Hanks e dirigido pelo Steven Spielberg e existe uma chance de isso ser mais oscar bait do que já é no momento?
O santo graal dos filmes criados especificamente para o Oscar, The Post é exatamente aquilo que você está esperando que seja, nada mais, nada menos. Meryl Streep é fisicamente incapaz de ser algo além de maravilhosa, e o Tom Hanks é o Tom Hanks. A história sobre como um jornal enfrenta tudo e todos para manter seu direito de contar a verdade sobre o governo é só de leve relevante num país em que o presidente disse mais “fake news” do que o nome da esposa no último ano. Mas, deixando tudo isso de lado, é um bom filme? Não. É um filme ruim? Não. É um filme do qual me lembrarei em 3 meses? Não. É entretente e uma boa opção para uma noite chuvosa? Sim. Espera entrar no Netflix, pq pagar pra ver no cinema é um pouco demais.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Atriz (Meryl Streep)
Deve levar: um grande sorriso no rosto e pelo menos duas piadas a custas do Trump durante a apresentação do Oscar



A forma da água



(The shape of water. Guillermo del Toro, 2017)

Antes de saber qualquer coisa sobre esse filme, antes de ver o nome ou o conceito de arte ou mesmo quem dirigia, a internet me informou que ia rolar um filme em que “a mina pega um monstro-peixe”. O que, tecnicamente, é verdade: mas é tão mais que isso.
Só tinha ouvido boas coisas sobre esse filme e foi o último que assisti de verdade. É sempre um perigo assistir qualquer coisa com expectativas altas, já que isso pode influenciar e muito sua opinião. Mas A forma da água não teve esse problema: esse filme é lindo. Ridiculamente lindo. Ofensivamente lindo. A cinematografia, a edição, a direção de arte... fiquei triste de não ter visto no cinema, pq presenciar esse mundo na tela grande deve ser algo maravilhoso.
Quem diria que um filme romântico de ficção científica seria um dos melhores filmes que vi nos últimos anos? A escolha de arte de criar um universo Bioshock lúdico foi inspirada e respeitei todas as decisões de direção e arte de uma forma que não me via fazendo há muito tempo. A história em si é simples: uma faxineira muda chamada Elisa (Sally Hawkins) trabalha em um laboratório no qual o governo encontrou uma criatura-peixe. O encontro de Elisa e da criatura muda a vida dos dois. Eu sei o quanto isso parece absurdo, mas dê uma chance pra esse filme: finalmente alguma coisa que podemos realmente chamar de sétima arte.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Diretor (Guillermo del Toro); Melhor Atriz (Sally Hawkins); Melhor Ator Coadjuvante (Richard Jenkins); Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer); Melhor Roteiro Original; Melhor Cinematografia; Melhor Figurino; Melhor Edição; Melhor Trilha Original; Melhor Direção de Arte; Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som
Merecia levar: honestamente? Quero que leve todos os técnicos. Só põe na conta, nem me importo: Melhor Cinematografia; Melhor Figurino; Melhor Edição; Melhor Trilha Original; Melhor Direção de Arte; Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som
Deve levar: Melhor Diretor vai levar com toda certeza. Melhor Filme é uma possibilidade real, mas faz um tempo desde que não tivemos o mesmo filme ganhando esses dois prêmios, o que me faz pensar que a Academia gosta de causar e não de votar pra mesma pessoa.


Três anúncios para um crime


(Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. Martin McDonagh, 2018)

Todo ano temos aquele filme. Sabe, aquele – aquele que ninguém nunca ouviu falar e todos fazem cara de surpresa porque “oi, como chama isso mesmo? Com quem é?”. Mas, como tem acontecido nos últimos anos, o filme hipster da lista acaba sendo um dos meus favoritos: tenho que aceitar que sou esse tipo de pessoa agora.
Um roteiro original interessante, cheio de reviravoltas, sobre uma mãe (Frances McDormand) que fica exausta com a falta de solução pro crime da filha, aluga 3 billboards na cidade pra pedir satisfação pro delegado – que está morrendo de câncer. Humor negro, ótimas atuações, diálogos bem escritos e um final satisfatório: o que mais você pode querer de um filme hipster do Oscar?

Indicações: Melhor Atriz (Frances McDormand); Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (Woody Harrelson e Sam Rockwell); Melhor Roteiro Original; Melhor Edição; Melhor Trilha Original
Deve levar: de verdade, gostaria que levasse Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante (Sam Rockwell tá incrível), mas não ficaria chocada se não levasse nada.





domingo, 26 de fevereiro de 2017

Oscar 2017

Mais um ano que passa, mais um Oscar que chega, mais uma vez ninguém se importa. Nada como o niilismo da existência diária revertido em meu post anual no blog.

OK, Oscar 2017. Basicamente:
Sabe aquela sua tia que faz um café super fraco, e com muito açúcar, mas que toda vez que você vai na casa dela você toma então se acostumou mesmo e nem repara mais? Sou eu, com o Oscar. Tá uma merda, como foi ano passado e como foi antes disso. De uma lista de nove, você não consegue três que são realmente exemplos máximo da arte do cinema americano. Mas ainda me dou ao trabalho de baixar e assistir todos na lista. Por quê? Ninguém sabe.

Esse ano, temos apenas nove indicações, já que a Pixar não fez a parte dela de lançar um filme incrível pra esse período. A Academia pode indicar dez filmes, e juro por Deus que toda vez me lembro daquela cena clássica de Jurassic Park: só porque você pode, não quer dizer que deve. Puta que me pariu, sei que é possível indicar dez filmes e que colocar “Indicado a Melhor Filme” na capa do DVD ajuda a vender, mas por favor. É super possível fazer um TBT e indicar cinco apenas. Ou seis. Não precisa só porque pode. O melhor que tenho a dizer sobre esses filmes é que quase todo têm ou menos de 2h ou só um pouquinho a mais, então se decidir assistir... não vai perder tanto tempo da sua vida assim?




A chegada

(Arrival. Denia Villeneuve, 2016)

            Antes de ver esse filme, tudo o que sabia sobre ele era que existiam aliens e uma linguista estava tentando traduzir o que os aliens falavam. Em nenhum momento imaginei que se tratava de um filme “sério” – vamos combinar que se você coloca a Megan Fox de óculos (pra mostrar como ela é esperta!) e várias explosões, isso bem que podia ser a premissa básica de um filme do Michael Bay. Mas não, é um filme dramático com aliens. Alguma parte do meu subconsciente que um dia viu Marte Ataca!  é incapaz de aceitar esse tipo de combinação e o estranhamento nunca mais foi embora.
            Tenho vários problemas com esse filme: o pacing é muito devagar (35 minutos pra eu ver a porra do alien que sei que existe porque aparece no trailer e é premissa básica da narrativa, pelo amor); ele se leva a sério demais, o que me deu um destoante absurdo porque são aliens que parecem as Ultrabeasts do último jogo de Pokémon; a teoria linguística que precisa ser aceita para que o “plot twist” faça sentido é ridícula pra mim; é impossível não pensar em “Interestelar com linguística” no final.
            Mas gosto de várias outras coisas: Amy Adams é uma ótima atriz; o processo de comunicação/tradução com os aliens é interessante para mim, como linguista que sou; a edição (de imagem e de som) está incrível.
            Agora, o que esse filme está fazendo aqui, numa lista de indicados ao Oscar pra Melhor Filme? Não faço a menor ideia, imagino que alguém é muito bom de cama e esteve muito ocupado fazendo lobby individual. Todos os prêmios técnicos são válidos, mas... sério. Aliens. Sou incapaz.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som; Melhor Cinematografia; Melhor Edição; Melhor Direção de Arte.
Deve levar: Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som são possibilidades, mas LA La Land está aí para acabar com essa alegria. Melhor Edição é discutível, mas se levasse não ficaria chocada. Mas, novamente, La La Land.



Um Limite Entre Nós

(Fences. Denzel Washington, 2016)
           
            O filme começa com o Denzel Washington, senhor da porra toda, fazendo praticamente um monólogo de 15 minutos. Foi nessa hora que pausei minha reprodução patrocinada pelo PirateBay e fui confirmar o que já suspeitava: é baseado em uma peça de teatro.
            Filmes baseados em peças de teatro são, em geral, uma coisa a parte. Pesados em diálogo, leves em tudo o mais. Esse filme não é uma exceção: é uma excelente peça filmada, mas não é um filme. A adaptação é quase inexistente, o que leva a um produto engessado, que não aproveita as várias possibilidades que o cinema permite explorar, inexistentes no palco de um teatro.
            Isso quer dizer que é ruim? Não quando o diálogo é incrível e você tem Denzel Washington (que deveria sim levar melhor ator, que se foda o irmão do Ben Affleck) e a Viola Davis diva suprema (que vai levar melhor atriz coadjuvante) mandando na tela. Mas, de um ponto de vista cinematográfico, é altamente pobre: não espere edições inteligentes, e ângulos de câmeras significativos ou paralelos visuais. É uma peça de teatro com trilha sonora. O que é muito bom e talz se você quer ver uma peça de teatro com trilha sonora, mas quando estou falando da linguagem do cinema, quero bem mais que isso. E o fato de este filme estar indicado pra Melhor Roteiro Adaptado é uma piada absurda. 

Indicações: Melhor Film; Melhor Ator Principal (Denzel Washington); Melhor Atriz Coadjuvante (Viola Davis); Melhor Roteiro Adaptado
Deve levar: Melhor Atriz Coadjuvante. Esse é o ano da Viola e ninguém pega esse prêmio das mãos dela. Denzel é a minha escolha pessoal pra Melhor Ator, mas ele sofre do mesmo mal que o Leonardo diCaprio e o Tom Hanks: eles são normalmente muito bons e as pessoas preferem premiar alguém que “surpreendeu” com o talento do que alguém que “está sempre bom porque é foda”.



Até o Último Homem

(Hacksaw Ridge. Mel Gibson, 2016)

            Todo Oscar tem um desses. Um desses filmes americanos da porra que sou obrigada a assistir porque está nessa lista, mas que nunca em um milhão de anos me daria ao trabalho. Esse ano, a honra vai pra um filme dirigido pelo Mel Gibson, também conhecido como o Babaca Antissemita e Racista Que Foi Famoso Um Dia.
            Esse filme foi um exercício pra minha paciência. E só não foi pior porque realmente gosto do Andy Garfield (indicado a Melhor Ator Principal, que não vai levar), mas mesmo assim. O filme começa com uma cena de guerra em câmera lenta com narração em voice-over e pula pra um flashback no qual o pai violento quebra a mão e sangra em cima de um túmulo (sutileza! simbolismo!)... e é tão clichê e tão descarado e tão desnecessário e tão forçado que nem sei o que dizer.
            O filme conta a história de um médico americano que se recusava a pegar em armas por motivos religiosos, e que salvou uma galera na Segunda Guerra. A história em si não é o problema, o problema é o sr. Mel Gibson, que no passado conquistou fama por fazer um filme de torture porn com Jesus Cristo e continua tentando muito chocar a audiência com explosões e sangues, como se isso fosse possível depois que milhões de Jogos Mortais. A terceira parte do filme envolve tranquilamente 15 minutos de pura violência e gritos e olhos explodindo e cérebro voando e ai meu Deus como a guerra é violenta, não é mesmo? Não recomendo, não vale a pena, o Mel Gibson ainda é um babaca, foram 2 horas da minha vida que nunca mais voltarão.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Ator (Andrew Garfield); Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som
Deve levar: Se há um Deus misericordioso, nada. Porque se essa merda de filme levar Melhor Direção, desisto da vida.


A Qualquer Custo

(Hell and High Water. David Mackenzie, 2016)

            Todo Oscar também tem um desses também – aquele filme do qual você nunca ouviu falar. Aquele que provavelmente seria o favorito do Zé Wilker por ser o mais hipster da lista. A honra de ocupar o posto de Indicação Hipster Que Ninguém Lembrará Ano Que Vem vai para A Qualquer Custo, a história de dois irmãos que começam a roubar bancos e do policial que cuida do caso (e está prestes a se aposentar, olha só!)
            A melhor coisa dessa filme é sua trilha sonora, ótima seleção musical, Tarantino se orgulharia. A segunda melhor coisa é que só tem 1h40min. Não tenho uma terceira coisa pra elogiar. Não é um filme ruim, em sim, é só um filme incrivelmente esquecível. Ele é tão bege que a Meg Ryan está julgando.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (Jeff Bridges); Melhor Roteiro Original; Melhor Edição
Deve levar: O Jeff Bridges ganhar é possível, e não seria um absurdo nem nada. Melhor Roteiro Original deve ficar com La La Land mesmo.
           

Estrelas Além do Tempo

(Hidden Figures. Theodore Melfi, 2016)

           Estrelas Além do Tempo é um filme que resume um dos meus maiores problemas com a indústria no momento: filmes construídos para momentos e não para coesão e história. Sabe quando está assistindo filme, e existe uma cena/fala que você pensa na hora “nossa, certeza que isso está no trailer”? Exatamente.
O filme é uma série de cenas que você pode adicionar um “uhhhhu snap” no fundo, interligada de forma a criar um filme, mas falta alguma coisa pra que a história flua de um modo orgânico. Narrando uma versão incrivelmente romantizada da história real de três mulheres negras que conquistaram seu espaço no mundo da NASA, esse é um filme entretente com um ótimo elenco, mas que é basicamente uma versão ligue-os-pontos de todos os filmes inspiradores de história real que você já viu na vida.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
Deve levar: Um grande sorriso e uma camiseta “Fui No Oscar e Lembrei de Você”




La La Land: Cantando Estações


(La La Land. Damien Chazelle, 2016)
           
            Estava exausta desse filme antes mesmo de ver o trailer. Aí vi o trailer e minha exaustão só subiu. Curto a Emma Stone, não tenho nada contra o Ryan Gosling e amo musicais, então você imaginaria que ia curtir esse filme, certo? Errado. Por alguns motivos: não aguento mais casal hétero e cis se apaixonando; não aguento mais filme romântico em que conflito ocorre por falta de comunicação (conversem com seus namorados, amiguinhos, dica); não aguento mais ver a mesma história. Sei muito bem que o ponto de La La Land é capitalizar na nostalgia, mas, olha em volta. Não precisa ficar nostálgico, a gente está engolindo essa mesma história faz anos, a única diferença é que a galera manda whats pro crush e não carta pra futura esposa.
            Agora, eu seria capaz de perdoar muita coisa, mas muita coisa, mas não capaz de perdoar um simples fato: você fez um musical com atores que não sabem cantar. Ponto final, fim de conversa, valeu a participação, boa sorte na vida. Ninguém canta nada. Como é possível que o mundo caiu de pau em cima do Russell Crowe por Le Miserable e não vi ninguém falando nada da Emma Stone?? Me senti pessoalmente atacada pela incapacidade vocal demonstrada no dueto dos dois. E, sem brincadeira, esse filme não tem nada a ganhar por ser um musical: as músicas são monótonas, cantadas por quem não sabe cantar e servem apenas pra me tirar do filme e me fazer pensar “caralho, ninguém nem fez aula de canto?” Ele seria tão melhor se fosse apenas um filme com bastante música instrumental, sabe.
            E sei que reclamei por dois parágrafos, mas na verdade não odiei La La Land. O terço final do filme (quando eles param de tentar forçar o canto, olha só) é realmente bom, a edição desse filme é incrível, a visão e o design necessário para criar esse universo é louvável. Mas  a hype toda desse filme não é merecida, ele é entretente e bonitinho, acabou. Galera do elenco que não para de falar que o filme foi um “risco” precisa procurar a palavra no dicionário – que não tem um filme mais calcado no “seguro” com um toque gourmet de musical do que esse.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Ator Principal (Ryan Gosling); Melhor Atriz Principal (Emma Stone); Melhor Roteiro Original; Melhor Trilha Sonora; Melhor Canção; Melhor Edição de Som; Melhor Mixagem de Som; Melhor Direção de Arte; Melhor Cinematografia; Melhor Figurino; Melhor Edição.
Deve levar: Possivelmente, todos ou uma boa parte dos técnicos, com destaque especial para Edição de Som, Mixagem de Som e Direção de Arte. Esse é um dos cotados para ganhar Melhor Filme e juro por tudo o que é mais sagrado que não existe UM universo em que La La Land é um filme melhor do que Moonlight. Claramente Oscar nunca foi um poço de coerência, então veremos o nível da putaria. Emma Stone é forte candidata também, e esse seria um prêmio merecido caso realmente acontecesse.
           


Lion: Uma Jornada para Casa

(Lion. Garth Davis, 2016)

            Esse foi o filme que me fez parar, respirar fundo e pensar “ok, agora sim Oscar”. Estou apaixonada por ele de todas as formas que você consegue pensar: atuação, edição, fotografia, trilha sonora, roteiro... ele é incrível, muito incrível... e não vai levar absolutamente nada nesse Oscar (yay!).
            Lion conta a história de um garotinho indiano que se perde da família e é adotado por uma família australiana. Ele trata temas complexos e duros sem usar narração voice-over em nenhum momento, confiando que você é capaz de entender o que está acontecendo pela belíssima composição de imagens e som. Se tem um filme dessa lista que recomendo de verdade que você assista, esse filme é Lion. Ele acerta em todos os quesitos de um jeito raramente encontrado, é um exemplo do que a arte visual do cinema pode fazer e de como é possível construir uma narrativa não somente baseada em diálogo e narração. Lindo e emocionante. Só assiste, vale a pena.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Ator Coadjuvante (Dev Patel); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Trilha Sonora; Melhor Cinematografia
Deve levar: Nada, senta e chora o absurdo.
Merecia levar: Melhor Ator Coadjuvante – Dev Patel, além de gato, tem uma plasticidade emocional incrível. Melhor Roteiro Adaptado deve ir pra Moonlight (justo, inclusive), mas sou muito mais Lion para Cinematografia do que La La Land, que deve levar.


Manchester À Beira-Mar

(Manchester by The Sea. Kenneth Lonergan, 2016)

            Sofrência: o filme. Manchester À Beira-Mar conta a história de um homem que perde o irmão e precisa voltar pra sua cidade natal pra cuidar do sobrinho e enfrentar seu passado, dan dan dan! O filme conta com a realmente brilhante atuação do Casey Affleck (irmão do Ben, que já estava pronta para odiar por princípio genético) e da Michelle Williams, que em 4 segundos vem e mostra como ela realmente é boa nesse negócio de atuação, bem como apresenta uma história interessante, desenvolvida com extremo cuidado.
            Não sei muito o que dizer sobre esse filme, na verdade. Ele é um drama pesado com boa atuação e um ótimo final. Ele não chega nem perto de ser o melhor da lista, mas não é o pior também. Duvido que cause muita hype ou que seja lembrado em dois anos. Ele existe. E é válido, mas não é chamativo o suficiente para chamar muita atenção.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Ator (Casey Affleck); Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges); Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Williams); Melhor Roteiro Original
Deve levar: Melhor Ator. Olha, queria muito que fosse o Denzel Washington. Mas deve ser do baby Affleck e vai ser uma escolha justíssima. Em qualquer outro ano, Michelle Williams teria chance real de levar, mas com a Viola Davis arrasando como está? Improvável.



Moonlight: Sob a Luz do Luar

(Moonlight.Barry Jenkins, 2016)
           
            Conversando com um amigo, comentei que só faltava Moonlight na minha lista de filmes de Oscar pra ver, e disse que estava preocupada com a possibilidade de ser muito pesado, já que sabia genericamene do que o filme se tratava (identidade negra, homossexualidade, uso de drogas e relacionamento interpessoal) e que estava com preguiça antes mesmo de começar.
            Adoro estar errada nessas coisas.
            Moonlight é um filme extremamente delicado, composto com maestria e adaptado pro cinema com precisão cirúrgica disfarçada de arte (olha só Um Limite Entre Nós, como é possível adaptar do teatro sem parecer que estamos numa peça, dica) com atuações incríveis e uma das melhores edições dessa lista. Sem a menor brincadeira, Moonlight é o claro vencedor de Melhor Filme desse ano – sim, pessoalmente gostei mais de Lion, mas admito que o melhor filme, cinematograficamente falando, é 100% Moonlight e será praticamente impossível não criar um discurso de racismo na Academia caso La La Land ganhe o prêmio máximo. Pense em Formation da Beyoncé perdendo pra Hello da Adele e vai entender o que estou falando.
            Lindo filme, ótimo filme, que o mundo me dê mais Moonlights e menos La La Lands em 2017.

Indicações: Melhor Filme; Melhor Direção; Melhor Ator Coadjuvante (Mahersahala Ali); Melhor Atriz Coadjuvante (Naomie Harries); Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Trilha Sonora; Melhor Cinematografia; Melhor Edição
Deve levar: Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado. Embora coloque minha mão no fogo somente pelo último.